Não compreendia a cultura do vinho antes de me casar. Em minha infância, frequentei a casa de amigos queridos que tinham uma adega monumental. Até hoje fico me perguntando o que perdi de tão extraordinário. Lembro-me das garrafas borgonhesas e dos champagnes que atualmente encontro nas lojas a preços assombrosos. No final da adolescência, era de cerveja comercial que eu gostava. Não ia além do que existe de mais comum. Vinho era algo complicado e elitizado demais, que eu bebia apenas para “fazer média” em algum encontro. Hoje percebo o que eu tomava de ruim. Dia desses, num depósito de bebidas, me deparei com um Black Tower a cerca de R$ 30 e um Liebfraumilch – o tal vinho alemão da garrafa azul – a menos de R$ 15 nas prateleiras. Ambos ficaram por lá. Antes de 2005, não devo ter ido muito além de um Frascati, cidade próxima a Roma que produz um vinho branco acessível e questionável na região de Lazio. O problema aqui não era exatamente preço, pois temos coisas em conta muito razoáveis, mas sim meu desconhecimento. Faltava a cultura do vinho.

Mas me casei com uma chefe de cozinha que gosta desse mundo e se especializou, em determinada fase de sua vida, em harmonização. A minha primeira experiência, memorável, assistiu ao casamento entre uma massa com frutos do mar e um rosado da Provence. Eu ainda estava ligadíssimo nos espumantes nacionais, provando o máximo que podia e me encantando com a palavra brut e o termo “método tradicional”. A fase se assemelha ao meu gosto por cerveja de trigo importada, me livrando das bebidas não maltadas nacionais, antes de conhecer a sigla e o sabor de uma IPA. Mas o papo aqui é vinho.

Em 2007, fomos passar o Carnaval no Rio Grande do Sul, visitando vinícolas, conhecendo o máximo possível dos borbulhantes sulinos. Foi divino. Mas até ali nada se comparou à viagem que fizemos em 2009 para Portugal e Espanha. Na terra dos patrícios, conhecemos a Herdade do Esporão no Alentejo e nos hospedamos na Quinta do Santo António no Douro. Na Espanha, duas visitas extraordinárias e exclusivas organizadas pela Mistral: a celebrada Vega Sicília e a respeitadíssima Hermanos Pérez Pascuas. Já estava apaixonado pelos vinhos, e a partir dali me aprofundei discretamente em algumas leituras, muitas conversas com amigos que entendem demais e, sobretudo, em visitas. Ao todo, já estive em cerca de 50 vinícolas ao longo dos últimos dez anos: Brasil, Uruguai, Chile, Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha. Diversas regiões em muitos desses países. Faltam, pelo menos, locais na Argentina (tão fácil), África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos. Mas não descarto outras possibilidades. Ser surpreendido é a essência desse universo.

O capítulo mais recente dessa paixão, que desde 2011 inclui arquivar em cadernos os mais de mil rótulos do que bebemos, foi escrever aos sábados para o blog www.misturinhasdaka.com.br. Trata-se de um espaço onde minha esposa escreve suas receitas e experiências, e eu falo sobre nossa paixão pelos vinhos. Ressaltando: falo sobre paixão. Isso mesmo: sobre sentimentos e percepções, algo pouco técnico, nada refinado e absolutamente atrelado ao que podemos sentir quando bebemos o que nos agrada (ou não). Os textos podem ser sobre viagens, comparações despretensiosas, sentimentos em relação a uma determinada uva, listas semestrais de vinhos por menos de R$ 55, oportunidades de compras, provas de “iguarias” trazidas de locais pouco usuais para nós, como a Rússia ou a China, e uma série de outras coisas que a criatividade e os sentimentos despertam.

É esse tipo de percepção, pouco técnica e absolutamente apaixonada, que trago até aqui a partir desse texto, quinzenalmente. Reproduziremos alguns materiais do Misturinhas da Ka e nos divertiremos juntos. Espere algo leve, fácil, gostoso, intimista e despretensioso. Algo para ser lido no final da tarde de sexta-feira, nos levando para as delícias do final de semana, ou para o agito dos restaurantes e bares, podendo servir de elemento para uma boa conversa com clientes ou amigos. Saúde!

 

 

Texto: Humberto Dantas

 

Humberto Dantas, doutor em ciência política, analista político, professor universitário e apaixonado pelo universo dos vinhos – muito mais amor do que técnica, sabedoria e conhecimento.

 

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