Publicada desde 2002 pela revista especializada britânica Restaurant, a lista dos 50 melhores restaurantes do mundo ganhou força e se transformou em um dos eventos da gastronomia mundial.  A cada ano, além da lista, são premiados o conjunto da obra de um chef,  a melhor chef mulher do mundo, um restaurante promissor, um restaurante que represente a escolha dos chefs e também o  restaurante mais sustentável. Em 2014, foi lançada a categoria de melhor chef pâtissier.

No Brasil, o prêmio ganhou destaque com a inclusão do D.O.M. entre os 50 melhores em 2006. Naquele ano, o estabelecimento de Alex Atala ficou na 50o posição e nunca mais deixou a lista, chegando a ficar em 4o lugar em 2012. Em 2013, o Mani também passou a fazer parte da seleção, estreando na 46o posição. Ano passado, o Brasil teve o seu melhor ano, com o D.O.M. no 7o lugar e o Maní em 36o lugar. Atala foi premiado como melhor chef na escolha dos chefs e Helena Rizzo levou o prêmio de melhor chef Mulher.

No dia 1o de junho, a 14a lista dos 50 melhores restaurantes do mundo  será divulgada em Londres. A revista Restaurant já divulgou a lista dos restaurantes do 51º lugar ao 100º lugar. Nessas posições não tivemos nenhum restaurante brasileiro. Mocotó e Roberta Sudbrack, respectivamente 12º e 13º da lista dos 50 melhores da América em 2014 (e potencialmente os mais próximos de figurar entre os 100), não conseguiram alcançar as melhores colocações do ranking nesta edição. O único da América Latina entre os 51º e 100º melhores do mundo foi o Tegui, de Buenos Aires, do chef Germán Martitegui, o primeiro restaurante argentino a figurar na lista.

 

Polêmica

Por iniciativa de três gastrônomas francesas, a jornalista e blogueira Marie Eatsider Hind Meddeb, a consultora de relações públicas Zoé Reyners e a jornalista de cultura e ativista Hind Meddeb reuniram-se para lançar o abaixo assinado contra a lista do 50 melhores restaurantes. Sua página na internet, até o fechamento desta matéria, já contava com 349 assinaturas.

occupy_50_bestPágina do site criado pelas gastrônomas francesas

 

Entre os chefs que assinam a lista, destaque para os franceses Pascal Aussignc, chef do Club Gascon de Londres e para português Luis Baena, chef do Notthing Hill Kitchen também de Londres, o francês Georges Blanc do restaurante Georges Blanc, um três estrelas Michelin na França. O chef Joel Robuchon  do L’Atelier Saint Germain que ficou em 31º lugar na lista de 2014 também assina o abaixo assinado. Este ano já sabemos que sua casa não ficará entre os 50 melhores do mundo, pois ele já foi classificado em 63º lugar na lista de 51º a 100º melhores. Entre os brasileiros que assinaram o abaixo assinado, inicialmente havíamos identificado a chef Paola Carosella do Arturito e o chef Maurício Machado. No entanto, a INFOOD conversou com a assessoria da chef Paola Carosella e fomos informados de que ela não assinou o abaixo assinado.

O abaixo assinado é direcionado aos patrocinadores da premiação e exige que deixem de financiar sua organização. O documento afirma que “o ponto comum entre o Moma (Dinamarca), o El Bulli (Espanha) e o The Fat Duck (Inglaterra) é que, além de já terem figurado no ranking dos 50 melhores do mundo, os restaurantes são responsáveis por dezenas de intoxicações alimentares“.

 

Como escolher o melhor restaurante

No seu texto, o abaixo assinado afirma que: “sobre pretexto de ‘atualizar’ as regras da gastronomia, ’50 melhores’, na verdade, impõe a sua própria ditadura de marketing, o narcisismo de chefs-celebridades, o uso de ingredientes premium ‘inovadores’ com risco aos clientes“.

the_world_50_best_restaurant_2Listas regionais complementam as escolhas

 

O fato concreto é que qualquer escolha será sempre cercada de contradições, pois é preciso definir um critério e, infelizmente, não existe uma forma que permita uma escolha sem qualquer subjetividade. A lista dos 50 se baseia na escolha de um júri formado pelo próprio prêmio com participantes que também concorrem com seus restaurantes. O abaixo assinado coloca em dúvida a eficiência do voto anônimo e, principalmente, se os votantes realmente comeram nos restaurantes antes de votar. A dúvida é correta, mas, para resolver a questão, cada jurado precisaria comer em no mínimo 100 restaurantes em diversos países antes da votação, algo praticamente impossível. Este ano o prêmio passa a contar com a consultoria Deloitte para proteger a integridade da lista.

Esse é um problema frequente em qualquer tipo de lista ou prêmio que seja organizado.  Para se ter uma ideia, alguns anunciantes não patrocinam essas ações por considerar que elas podem prejudicar suas marcas, mas o fato é que são essas listas e premiações que ajudam na promoção de diversos setores e na busca pela qualidade.

Quando olhamos para o mercado brasileiro, podemos dizer que D.O.M. e Maní, se não são os melhores restaurantes do país, certamente figuram o patamar mais elevado. Podemos imaginar que outras casas poderiam participar da lista, mas nunca colocar em dúvida a qualidade dos dois representantes brasileiros nas últimas edições.

helena_rizzoHelena Rizzo escolhida como a  melhor chef Mulher em 2014

 

Em qualquer premiação mundial haverá uma receita para buscar uma indicação.  No caso da lista dos 50 melhores restaurantes do mundo, observando a composição do júri, podemos recomendar um primeiro passo para um chef que deseja ver seu restaurante na lista. Ele precisa conhecer alguns dos componentes do júri. A seguir, ele deve visitar o jurado em seu restaurante e depois fazer o convite para que este venha conhecer sua casa. Isso pode ser visto como uma falha no processo, mas de fato é assim que as coisas funcionam. Como um jurado que não mora no Brasil poderá conhecer uma nova casa brasileira? É trabalho do restaurateur ou do chef divulgar seu trabalho.

Um ponto que os autores do abaixo assinado não pensaram é que a revista Restaurant convive com os resultados de sua lista para doze meses. Quando uma publicação pensa num prêmio, ela sabe os riscos que está correndo, pois está expondo sua marca quando chancela uma posição na lista.

Na história da humanidade, sempre classificamos os melhores e os piores. A lista traz luz ao processo e tenta facilitar a escolha de um restaurante para que o consumidor tenha uma experiência satisfatória. Mas o fato é que, para muitos consumidores, estar num restaurante da lista já é em si uma grande experiência. Se você já tentou uma reserva no Noma, o restaurante de Copenhague (Dinamarca), número um da lista de 2014, sabe que a reserva para os 45 lugares da casa só pode ser feita com três meses de antecedência.

A busca de um meio termo, do diálogo e do entendimento nos parece a melhor saída para o benefício do setor. Na tentativa de entender como a galinha bota seus ovos de ouro, podemos acabar matando a galinha. O direcionamento do abaixo assinado para os patrocinadores do prêmio é uma escolha inteligente, mas que pode afastar anunciantes de iniciativas assim. Não devemos ser ingênuos: esses patrocinadores que garantem a realização do prêmio são os primeiros a cobrar o cuidado na seleção dos ganhadores, pois estão buscando o sucesso de suas marcas.

 

Acesso a petição:

http://occupy50best.com/

Lista dos 51ºlugar ao 100º lugar:

http://www.theworlds50best.com/list/1-50-winners#t51-100

 

 

Por Reginaldo Andrade

 

 

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