Fátima Anselmo é produtora orgânica e faz uma agricultura urbana no Rio de Janeiro. Ela trabalha com brotos de vegetais, mini legumes e flores comestíveis .

Cearense de Fortaleza, Fátima já morou na agitada São Paulo antes de se mudar para Petrópolis. Sua ida para o Rio de Janeiro foi para acompanhar o marido, um carioca que conheceu em um trabalho social que faziam em comunidades carentes paulistanas.

Fornecedora para famosos como Claude Troisgros, Roberta Sudbrack, Flávia Quaresma, Fasano e Sheraton, Fátima afirma que “o bom da parceria que eu tenho com os chefs é que eles sabem que não estão simplesmente comprando uma flor, um broto ou mini legume, mas compram também o conceito de orgânico. Eles sabem que estão gerando trabalho no campo, estão ajudando o agricultor a continuar trabalhando, e estão também ajudando o meio ambiente. “

Sobre os altos preços dos produtos orgânicos, ela acredita que, como o consumo está em crescimento, mesmo que a pequenos passos,  quanto mais pessoas consumirem, mais se irá produzir, e a tendência dos preços é diminuir.

Em entrevista à Infood, Fátima revela as dificuldades de se trabalhar com produtos orgânicos, conta do seu engajamento na conscientização do consumo de orgânicos, dando aulas e palestras sobre o assunto, e revela sobre a delicadeza em se utilizar flores em pratos.

INFOOD – Como você se interessou pela agricultura?

FÁTIMA ANSELMO – Eu sempre me preocupei com a questão de alimentação. Quando as minhas crianças nasceram, saímos do apartamento e fomos morar numa casa, na região rural. Essa região rural de Petrópolis chama-se Brejal, e é onde está o meu sitio. Nesse momento eu comecei a ter contato com os agricultores, e propus uma troca: eu trabalhava, não recebia, mas eu queria aprender. E, além disso, eu fui pesquisando, estudando…

E depois de um tempo eu comecei a plantar para mim. Eu queria levar as boas novas da alimentação saudável, sem produto químico, para outras pessoas.

INFOOD – Como se deu a evolução do seu trabalho?

FÁTIMA – Há vinte anos, era tudo muito mais difícil, porque as pessoas não tinham ainda tanta consciência como têm hoje. Era difícil de sobreviver. Então eu passei a vender no Rio, porque só em Petrópolis era complicado, e comecei uma parceria com alguns chefs.

O primeiro foi Claude Troisgrois, que abraçou a causa da agricultura familiar. Eu entrego meus produtos para ele até hoje.

INFOOD – O que acha de trabalhar com orgânicos?

FÁTIMA – A plantação orgânica é muito trabalhosa, porque é um trabalho muito artesanal, é tudo manual. Agora há algumas técnicas de manejo de espaçamento, para melhorar um pouco, mas é tudo manual. É você, corpo a corpo com a terra. Nós não usamos nenhuma máquina, não usamos nenhum produto químico.

O trabalho orgânico é diferenciado. É feito por pequenos agricultores, com agricultura familiar.

INFOOD – Como é o custo do orgânico?

FÁTIMA – O custo do produto orgânico é mais alto. Por exemplo: se eu plantar 600 pés de alface, talvez eu colha 400, pois é capaz de ter algum tipo de praga e, além disso,  esses 400 terão tamanhos diferentes. Na agricultura orgânica, não tem como se padronizar o tamanho do produto.

Já na agricultura convencional, com o produto químico, planta-se 600 e se colhe 600, garantindo toda a produção, e todos os 600 com um tamanho padrão.  Em contrapartida, ele acabou com o solo, com os micro-organismos, acabou com a água, acabou com a saúde do agricultor e do consumidor.

INFOOD – Você tem certificação?

FÁTIMA – Sim, tenho a certificação de orgânicos, que é mais uma segurança para o consumidor. Para termos uma certificação, paga-se caro. É preciso pagar para dizer que você é orgânico, que todos os seus colaboradores têm carteira assinada, que você não utiliza agrotóxicos, que você cuida da água. E aquele agricultor que utiliza produto químico, ele não tem que provar nada.

INFOOD – Como é trabalhar com flores?

FÁTIMA – As flores são plantadas na estação certa. É preciso estudar muito com relação à questão climática de cada flor. Saber quais gostam mais de água, quais gostam de sol.

Tudo é uma questão de dedicação. A ideia é oferecer ao cliente um produto de qualidade, respeitando o tempo de cada produto. A natureza faz o resto.

Além de plantar, eu dedico tempo também procurando boas sementes. O Brasil não tem muitas sementes de flores. Às vezes, é necessário comprar fora. Aqui no Brasil, as sementes disponíveis são muito caras.

O solo tem que estar bem cuidado, bem tratado. Para as flores saírem bonitas, o segredo está no solo. É preciso cobrir as plantas, feito uma estufa, para protegê-las do vento, da chuva.

INFOOD – Como é a procura por flores?

FÁTIMA – Tem aumentado muito significativamente a procura pelo tipo de trabalho que faço. Eu não imaginava que fosse crescer tanto assim a questão das flores. Todo mundo quer botar flores em tudo. Tem época que eu não consigo atender, porque é muita gente querendo flor. Eu aumentei a minha produção por conta da grande procura.

Atualmente são os restaurantes que me procuram, pois um acaba indicando para o outro o meu trabalho.

INFOOD – Você fornece para todo o Brasil?

FÁTIMA – Eu forneço para o Rio de Janeiro, Maceió, Florianópolis, Maranhão.  O envio das flores é feito por avião. Por ser um produto muito delicado, ele vai numa embalagem apropriada, com muito cuidado.

INFOOD – Quais as maiores dificuldades que um produtor de orgânicos enfrenta?

FÁTIMA – Tenho uma equipe composta de 20 pessoas, que trabalham exclusivamente na terra, e se mantém disso.

As maiores dificuldades que um produtor orgânico encontra são as sujeições do clima, encontrar sementes e encontrar pessoas que valorizem o trabalho.

Eu tenho planos de expandir o meu negócio, mas no momento eu ainda não tenho condições financeiras de aumentar. Preciso me fortalecer mais financeiramente. Atualmente trabalho com brotos de vegetais (brócolis, couve flor, salsa, beterraba, nabo, rabanete), mini legumes e flores comestíveis.

INFOOD – Quais os seus planos para o futuro?

FÁTIMA – Para o futuro, espero que minha produção fique bem fortalecida, e que eu possa ficar mais livre para sair nas escolas, conscientizando as pessoas do valor da agricultura orgânica.

Temos que cuidar da terra com carinho, com amor. É possível termos, num futuro, uma produção só orgânica. As novas gerações estão muito mais conscientes e preocupadas com o mais saudável.

INFOOD – Como é a utilização de flores comestíveis na gastronomia?

FÁTIMA – A utilização de flores nos pratos não é fácil. Tem que ter a combinação certa. É uma arte: tem que combinar cor, sabor. Tem flor que é mais picante, tem flor que tem mais cheiro. É preciso a sensibilidade do cozinheiro com o que a terra deu. Não é simplesmente jogar qualquer flor no prato.

INFOOD – Você trabalha com quais flores?

FÁTIMA – Se algum chef quiser uma flor que eu não tenha, eu vou à caça para plantar para ele.O Claude queria a flor de Jambu. O jambu é do Pará, e gosta de lugar quente. Nessa época eu estava ainda em Petrópolis, e lá o clima é frio. Eu plantei e coloquei o jambu dentro de uma estufa, ficava abafado, e ele adorou aquele calorzinho, e até hoje eu tenho esse jambu, porque eu fiquei tirando as minhas próprias sementes.

 

 

Orgânicos da Fátima

Fátima Anselmo
https://www.instagram.com/organicosdafatima/
Tel. (21) 98001-0155
v.organico@hotmail.com

 

 

Por Redação

Fotos: Gustavo Guterman e Divulgação

 

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