Houve um momento na vida de Liana Machado Rangel em que ela optou por estar mais presente na vida de seus filhos, e acabou entrando na gastronomia, meio por acaso, após deixar a vida de executiva de marketing. Fruto dessa decisão no passado, hoje Liana tem um negócio gastronômico chamado ‘A vida real é mais gostosa’.

“Tive que decidir se continuava investindo na carreira e abria mão do tempo precioso com os filhos, ou se buscava uma atividade que me desse prazer, permitindo que continuasse sendo produtiva.”

Mesmo não tendo formação em Gastronomia, Liana decidiu estudar e se aprofundar no assunto, fazendo vários cursos intensivos na área. “Sou muito curiosa e estou sempre querendo aprender mais, estou sempre lendo e pesquisando.”

O que antes era seu hobby passou a ser sua profissão. “Eu sempre gostei muito de cozinhar, sempre estive envolvida na cozinha, sempre gostei de receber as pessoas. E cada vez eu percebo e me surpreendo mais vendo que a comida está em tudo o que a gente faz. Está impregnada na cultura, na saúde, no jeito de nos relacionarmos com as outras pessoas. É um universo fascinante.”

Com seu ‘A vida real é mais gostosa’, essa jornalista que nunca exerceu essa profissão oferece Aulas de Culinária, Cozinheira Delivery, Dia a dia Gourmet e Let’s Cook Together. “Para trabalhar com gastronomia, não é preciso, necessariamente, ter um restaurante. Existem várias outras possibilidades”, afirma a cozinheira.

A Infood entrevistou Liana e a acompanhou numa Oficina Gastronômica no Espaço Casanostra, onde suas alunas puderam não apenas aprender a cozinhar com ela, mas também a se aproximarem da cozinha, retomando os encontros, cozinhando uma comida de verdade, e desfrutando o momento de estarem juntas ao redor da mesa.

INFOOD – Como entrou na gastronomia?

LIANA RANGEL – Com a chegada dos filhos, eu decidi que gostaria de estar presente na vida deles. Eu trabalhava em uma empresa de tecnologia, na área de marketing, com uma carga horária pesada e muitas viagens.

A empresa em que eu trabalhava era cliente de uma confeitaria de doces finos para festas. Eles faziam na época mini bolos personalizados e meu contato com a confeitaria era como cliente. Certo momento, a proprietária, grávida, me disse que não tinha ninguém para ajudá-la no período de sua licença maternidade. E me prontifiquei a ajudá-la, já que morava perto.  Ela aceitou minha ajuda, e acabamos fazendo uma sociedade.

INFOOD – Em que ano foi isso?

LIANA – Em 2008.  Comecei a trabalhar com ela, entrei de cabeça e acabei me apaixonando pela confeitaria.

INFOOD – Como surgiu a ideia do ‘A vida real é mais gostosa’?

LIANA – Depois de 5 anos, a minha sócia deixou a sociedade, e ainda fiquei mais 3 anos atuando sozinha na confeitaria. Mas o mercado deu uma brecada, as pessoas passaram a cancelar festas e a diminuir suas encomendas. O tíquete médio do meu cliente caiu 30%, e o meu faturamento também. Nesse momento, eu comecei a pensar em algumas alternativas, até que surgiu a oportunidade de vender o negócio para uma pessoa que se interessou.

Tive que começar a repensar o que eu queria fazer. Passei uns seis meses colocando a vida em ordem, e surgiu a ideia do “A Vida Real é Mais Gostosa”, há cerca de 1 ano. Minha ideia era sair um pouco daquela ideia de só confeitaria. As amigas vinham me pedir para ensinar, me ligavam perguntando dicas. E vi que poderia dar um negócio. Comecei a dar alguns cursos, e as pessoas foram se interessando. Sempre as turmas de cursos ficavam completas. E foi dando certo, o negócio foi caminhando.

INFOOD – Por que esse nome?

LIANA – Quando eu comecei a pensar nesse meu negócio, era o auge dos modismos gluten free, lactose free, sugar free. O modismo estava atrapalhando as pessoas, deixando-as confusas. Bem no início desta minha empreitada, montando meu blog e sem ter um nome definido para o meu negócio, numa conversa com amigos, começamos a falar do que era saudável e o que não era, e de tantos modismos, mitos e complicações em torno do assunto, que num dado momento eu disse: ‘a vida real é mais gostosa’. Aí o Osmar, pessoa que fazia os vídeos para mim, falou: “Está aí um nome legal para você usar…”

INFOOD – Como você vê o alimento?

LIANA – Acredito que a gente deva comer de tudo, de um jeito equilibrado, na quantidade certa, não descartando a comida de verdade, aquela que você prepara na sua casa, minimamente industrializada. Essa é a comida viva, a comida que nutre as pessoas.

INFOOD – Quais os serviços que sua empresa oferece?

LIANA – Aulas de culinária, o Cozinheira Delivery – que é uma espécie de consultoria, no sentido de conversar com as pessoas e entender quais as necessidades dela no dia a dia para variar ou enriquecer mais o cardápio. Trabalhamos também com encomendas, para aquelas pessoas não têm tempo, mas não querem comprar industrializado. Eu faço e entrego as encomendas.

INFOOD – Quais os planos para o futuro?

LIANA – Se a demanda aumentar, eu vou precisar fazer um investimento no sentido de ir para um lugar maior.  Mas eu quero dar um passo de cada vez. Eu não quero começar com uma super estrutura para depois  correr atrás de cliente para poder pagar a estrutura. Eu quero começar primeiro ganhando clientes, entendendo como o mercado se comporta, quais produtos têm uma margem maior de lucro e, a partir daí, vou desenhando o negócio aos poucos.

Talvez um dia eu decida criar um ponto de venda para o meu produto, criando uma linha de produtos que a demanda justifique um ponto de venda. Ainda não cheguei nesse estágio, mas estou avaliando.

INFOOD – Como é que você divulga o seu negócio?

LIANA – Algumas pessoas me conhecem desde o tempo da confeitaria. Os amigos acabam falando um para o outro, e também uso o Instagram, Facebook. Mas o que mais funciona ainda é o boca a boca.

INFOOD – Qual a maior dificuldade que você enfrenta no seu negócio?

LIANA – O custo é uma dificuldade quando se fala de um trabalho artesanal. O molho que eu faço e entrego é artesanal. É feito com tomate de verdade, não tem conservante, não tem química.  É um produto totalmente diferente do industrializado, que é bem mais barato. As pessoas ainda focam muito no custo. Falta valorizar a diferença que há entre um molho de caixinha do supermercado e o molho artesanal.

As pessoas estão com o paladar viciado de tanto comerem o industrializado. E a nossa proposta é outra. De sabor, de preparo. Não dá para comparar, pois é outro produto. Mas elas comparam e nem sempre entendem porque o molho industrializado acaba sendo 100% mais barato que o meu.

Outras dificuldades são aquelas que todos os micro empresários passam: leis antigas e pouco flexíveis, dificuldades em conseguir todas as licenças e alvarás de funcionamento… Eu acho que o micro empresário brasileiro é um herói.  Ele é fênix , renasce das cinzas todos os dias. E todo dia ele mata um leão.

INFOOD – Você tem sócios?

LIANA – Não, sou só eu. Se aparece uma demanda grande de um produto para fazer, eu contrato alguém para aquele momento específico, um freelancer.

Trabalhar com alimentação é uma enorme responsabilidade. É preciso estar muito presente, tem que estar muito consciente de tudo que é feito, desde a escolha dos ingredientes, o processo produtivo, limpeza, higiene, método de preparo, método de conservação. Se a proposta é levar saúde, levar sabor e qualidade de vida para as pessoas, isso tudo tem que estar ali empacotado no seu produto.

INFOOD – No plano de negócios que você fez, qual a previsão de retorno do que você vem investindo?

LIANA – Ainda não tenho isso. Vejo também que há uma enorme falta de informação, É difícil encontrar relatórios, levantamentos e informações palpáveis, que possam me dar um parâmetro. Atualmente sou eu que faço a ficha técnica de cada produto, compro a matéria prima, os utensílios, vou para a cozinha preparar, embalar, entregar. Hoje é como se fosse uma incubadora dentro da minha casa. E, em algum momento, para crescer, vai ter que sair de lá. 

INFOOD – Seu trabalho demanda muito do seu tempo. Como a família vê isso?

LIANA – A família apoia muito! Eles sempre experimentam tudo o que eu faço. Ontem preparei um pãozinho sem glúten, sem leite e sem ovo. Como eu nunca havia trabalhado com esse tipo de produto, que é uma linha muito específica, o resultado final para mim era um mistério. Assim que vi o resultado, fiquei preocupada, mas eles provaram e gostaram. Acho que sou mais rigorosa na avaliação do que eles.

INFOOD – Já que você não tem uma formação em gastronomia, como você faz para aprender?

LIANA – Eu sinto falta do conhecimento formal. Ele jamais pode ser desprezado. Porque, na cozinha, é imprescindível que se entenda alguns princípios. A partir da compreensão do princípio, você tem mil possibilidades. Mas é importante que você domine a técnica, para então você ter a liberdade de criar e colocar a sua marca, a sua impressão digital. Eu estou sempre experimentando, lendo muito, e também acompanho alguns chefs. Mas tenho nos planos cursar gastronomia. Acredito que eu esteja fazendo o caminha inverso da maioria das pessoas.

INFOOD – Quem são suas referências?

LIANA – Sou fã da Rita Lobo. Ela é maravilhosa e inspiradora por desmistificar, abrindo o universo da gastronomia, aproximando as pessoas da cozinha; o Alex Atala, por ser o precursor em valorizar os ingredientes brasileiros. Gosto muito também do Michael Pollan, escritor americano, pela forma como ele aborda o tema comida, quase de uma forma antropológica, falando do papel da comida, e como nos relacionamos com a comida.

INFOOD – O que te motiva na cozinha?

LIANA – É na cozinha o lugar onde eu exerço o meu talento. É ali que eu gosto de estar. É o que me dá satisfação. Eu acredito no que eu faço, e faço com muito prazer.

É importante tomar decisões e não ser refém de uma indústria; de você oferecer para a sua família alimentos feitos em casa. A comida caseira, a comida de verdade, a comida bem feita. Fugir dos industrializados. Eu sempre tive essa consciência e essa preocupação.

INFOOD – Onde você quer chegar?

LIANA – Eu gostaria de ter um espaço, uma cozinha aberta ao conhecimento, aberta às pessoas, aproximando-as da comida e do cozinhar. Isso demanda um espaço físico bem montado, agradável e apropriado. Um espaço de aprendizado e convivência. E, no período em que a cozinha não estiver funcionando para isso, que fosse uma cozinha de produção, para que eu possa expandir o leque de produtos.

INFOOD – Você cozinha e também ensina a cozinhar. Qual das duas atividades você mais gosta de fazer?

LIANA – Estou fazendo as duas coisas que eu mais gosto. Mas ensinar é o prazer máximo. Compartilhar prazer é a melhor coisa que existe. O que não é compartilhado, é efêmero, acaba rápido. Quando alguém aprende a preparar algo que você ensinou e depois retorna dizendo que fez aquele prato e a família gostou, é maravilhoso!

INFOOD – Quando você não está cozinhando, o que você gosta de fazer?

LIANA – Eu adoro ler!  Gosto de ler de tudo. Gosto de cinema, de música. E, no final das contas, os momentos em que não estou trabalhando, estou com minha família. Os programas giram em torno do marido e filhos.

 

 

A Vida Real é Mais Gostosa

http://www.avidarealemaisgostosa.com.br/
https://www.instagram.com/lianamachadorangel/
https://www.facebook.com/avidarealemaisgostosa
https://www.youtube.com/channel/UCi6qBeGct9heNhKsSU95uGg
contato@avidarealemaisgostosa.com.br

 

 

Por Redação

Fotos: Fernanda Moura

 

Deixe uma resposta

Márcio Silva: “No Buzina nós fazemos o que a gente gosta, cozinhamos o que a gente come”

Publicidade
Publicidade
© 2017 Infood - Todos os direitos reservados