Neste último fim de semana, Alex AtalaFelipe Ribenboim, em parceria com o Instituto ATÁ, realizaram em São Paulo o Seminário FRUTO, uma iniciativa que fortalece o papel dos cozinheiros no processo. Como destacou Carlos Petrini,  do SlowFood  e um dos palestrantes do encontro, esta foi uma das mais importantes iniciativas do mundo para falar do alimento: “Quero agradecer Alex e Felipe por este evento. É a primeira vez no mundo onde chefs organizam um evento onde se fala de gastronomia de maneira holística.”

Muito mais que buscar as respostas, o Seminário FRUTO buscou levantar uma importante base de conhecimento nas iniciativas que vêm sendo desenvolvidas, usando como base uma pergunta básica: Como alimentar (bem) um planeta inteiro? O evento reuniu 30 das mentes mais importantes no ramo da sustentabilidade. A Infood participou do encontro e traz para você um pouco da experiência do seminário.

Felipe Ribenboim  e Alex Atala 

A ideia do FRUTO

O Seminário FRUTO é o começo de uma iniciativa que estará sendo construída em 2019:  “Palestras relevantes, mas entendo que a mensagem em todas elas é de otimismo. Se o mundo caminha para uma catástrofe, o caminho de mudança é a consciência. E com o seminário podemos perceber que a consciência existe.  Alimentar o mundo é o maior paradoxo para a humanidade nas  próximas décadas. O Fruto é uma pequena semente que deve gerar outros frutos para, quem sabe juntos, a gente construa uma resposta“, explica Alex Atala.

Qual é o papel dos cozinheiros

Para Alex, os cozinheiros têm um papel fundamental no processo: “Os cozinheiros podem dar voz a esses trabalhos. O papel do cozinheiro não é só alimentar, mas também de difundir sabedoria, difundir sabor, difundir biodiversidade e, fundamentalmente, conectar as pessoas. Nós não vamos conectar 7 bilhões de pessoas com a internet. Vamos fazer isto com a comida.

Jerônimo Villas-Bôas: “Conhecer a biodiversidade é o primeiro passo para conseguir conservá-la.”

 

Jefferson Straatmann: “Cada vez que caminhamos com um habitante da floresta (ver) somos encharcados de conhecimento, pois a floresta é uma dispensa viva.”

 

Carlo Petrini: “Não gosto da palavra consumidores, nós necessitamos ser co-produtores.”

Ao final do evento, o jornalista ambiental Claudio Angelo ajudou a organização com a elaboração de uma documento final do evento:

Sementes do Seminário FRUTO

A humanidade está numa encruzilhada alimentar:

Nos próximos 40 anos, precisaremos produzir a mesma quantidade de comida que produzimos nos últimos oito milênios. Será preciso alimentar 9 bilhões de pessoas em 2050, com uma expansão da classe média na África e na Ásia que dobrará o consumo de alimentos per capita. Tudo isso num mundo onde 815 milhões de pessoas passam fome hoje e 1,5 bilhão estão hipernutridas.

O sistema atual de produção está matando o planeta:

A agropecuária hoje é a atividade humana com maior impacto sobre o globo. Usamos os recursos naturais equivalentes a umaTerra e meia, o que significa um saque a descoberto nos recursos naturais. Cerca de 70% da conversão de habitats e da perda de biodiversidade se devem à produção de comida. No Brasil, já perdemos 20% da Amazônia, 50% do Cerrado e 93% da Mata Atlântica. E a pressão sobre os ecossistemas terrestres e marinhos é crescente.

Os desafios não têm precedentes e são de múltiplas ordens:

Nas próximas décadas, precisaremos produzir mais comida usando menos recursos. Isso é especialmente desafiador num mundo em que o sistema de produção e distribuição de alimentos está concentrado na mão de poucas corporações e segue a lógica da finança global e não de alimentar a humanidade.

A mudança do clima torna esse quadro ainda mais dramático:

O aquecimento global vem reduzindo áreas de cultivo ao redor do mundo a uma velocidade maior do que os modelos previam. O número de solos degradados pode dobrar até o final do século e, entre as áreas
mais vulneráveis, estão aquelas onde vivem os agricultores mais pobres, como a África subsaariana e
o Nordeste do Brasil.

As soluções também são múltiplas:

Não há uma receita única para superar o desafio de alimentar bem a humanidade. Parte da resposta está na ciência, com o desenvolvimento da agricultura vertical, adaptada às cidades; com a engenharia  genética e outras tecnologias agrícolas, para aumentar a resistência das cultivares à mudança do clima e ampliar a eficiência da fotossíntese. Mas parte da resposta também está em técnicas como a agricultura sintrópica, que não usa insumos químicos e a produção orgânica.

O produtor de alimentos é aliado, não vilão:

Pescadores de arrasto não matam tubarões e golfinhos porque querem, e sim por falta de oportunidade de fazer diferente. Um quarto dos agricultores causa metade do impacto ambiental não por maldade, mas por falta de recursos. Essa parcela dos produtores precisa ser objeto de políticas de aumento de eficiência e de qualidade. Devem ser engajados em novos modelos de produção, não vilanizados.

As populações tradicionais serão cada vez mais importantes:

Indígenas, quilombolas e outras populações de agricultores que detêm conhecimento tradicional têm papel-chave na alimentação do século XXI. Como guardiões da diversidade de cultivares e da “dispensa  viva” que são os ecossistemas naturais, esses povos são a principal barreira contra a erosão genética causada pela agricultura comercial, que reduz tanto a variedade de alimentos que chega à nossa mesa quanto a resiliência do próprio sistema agrícola, dominado por poucas plantas. Eles precisam ter a integridade de seus territórios garantida e seus produtos integrados a sistemas modernos de comercialização, para que possam chegar da floresta à mesa.

Os oceanos são a próxima fronteira:

O aumento projetado na demanda por proteína animal é de 80% até 2050. O pescado pode ajudar a suprir grande parte dessa demanda adicional a uma fração dos custos e dos impactos ambientais. Mas será preciso desenvolver mais aquicultural, já que o pescado selvagem não consegue mais suprir o mercado,  e mudar radicalmente a maneira como se pesca: 80% das populações estão esgotadas ou superxploradas e 40% de tudo que se extrai do mar é caputra acidental (“bycath”).

É preciso fortalecer a alimentação local:

A cultura começa a ser vista como vantagem comparativa, e a gastronomia é um braço fundamental dessa nova economia. A revolução gastronômica e turística do Peru mostra como países cultural e gastronomicamente diversos, como o Brasil, podem transformar esse ativo em vantagem competitiva – gerando receita, “soft power” e, ao mesmo tempo, protegendo os camponeses e a diversidade de alimentos locais.

E reconectar a população urbana com o campo e a floresta:

Experiências como as florestas de bolso de São Paulo e as hortas urbanas de Los Angeles ajudam a mostrar que a fronteira entre o consumidor e o produtor de alimentos pode ser móvel. Mais do que isso, num mundo onde 65% da população vive em cidades, é fundamental religar as pessoas com a maneira como se produz comida e com a origem do alimento, os ecossistemas naturais.

 

FRUTO

O Seminário FRUTO é o começo de uma iniciativa que estará sendo construída em 2019 e você pode acompanhar nos links abaixo:

http://fru.to/

https://www.facebook.com/seminariofruto/

https://www.instagram.com/fru.to/

https://twitter.com/@frutobr

contato – contact@fru.to

 

Por Redação

Fotos - Heverton Leal

 

Uma ideia sobre “Alex Atala: “O papel do cozinheiro não é só alimentar, mas difundir e conectar as pessoas.””

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