No berço da gastronomia, a França, foi lançado no ano passado um movimento para acabar com o desperdício de alimentos produzidos nas lavouras que chegavam aos mercados e feiras e que acabavam no lixo só porque estavam com uma “cara feia”.

A ideia partiu de produtores franceses que perceberam atacadistas e supermercados, ao arrumarem suas gondolas com frutas legumes e hortaliças, faziam uma seleção dos produtos, desprezando os que não estavam dentro de um determinado “padrão de beleza”, mas, que ainda assim, eram próprios para o consumo humano, e que esses produtos sumiam das vistas dos compradores. Esses produtores foram atrás dos produtos para saber seu destino final e descobriram que eles iam parar no lixo. Então tiveram a ideia de sugerir aos gerentes e administradores dos supermercados e feiras que montassem gôndolas com esses produtos de “cara feia” com uma redução de preços, estabelecendo assim uma forma de aproveitar o que alguns consumidores deixavam de lado, fazendo nascer o movimento.

A ideia pegou e virou febre. Dela nasceu uma marca Les Gueules Cassées (as caras quebradas, em tradução livre), que reúne produtores agrícolas franceses e visa revalorizar alimentos disformes. Já foram vendidos 10 mil toneladas de hortifrútis “feios”, segundo Nicolas Chabanne, co-fundador da marca. Na França, 20 kg de alimentos são jogados fora anualmente, por pessoa, sendo 7 kg de produtos não consumidos e ainda embalados, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. O movimento está se espalhando por quase toda a Europa e já está sendo exportado para outros continentes, chegando aos EUA e, quem sabe logo mais, no Brasil.

Por aqui há um desperdício de cerca de 40% dos alimentos produzidos no campo de um total de 100%, ou seja, apenas 60% chegam à mesa dos brasileiros, dos quais boa parte sofre a mesma seleção nos atacadistas, nos mercados e feiras, e poderia ter uma destinação muito melhor do que simplesmente o lixo, auxiliando a economia doméstica e também dos restaurantes.

Imagine-se deparando com uma gôndola com legumes, hortaliças e frutas onde os produtos são 30% mais baratos com uma plaquinha dizendo “eu tenho cara feia, mas, nem por isso deixo de ser gostoso e ainda alimento você”. Pois é assim que os supermercados e feiras fazem lá fora depois do movimento que adotou o nome cara feia, e que vem revolucionando com uma nova forma de economizar.

Esses alimentos podem perfeitamente ser usados na culinária de transformação, tornando-se saladas, sopas, molhos de tomate, purês de batata, sucos no caso das frutas, geleias, compotas doces e salgadas, entre tantas outras boas aplicações, reduzindo o gasto no orçamento doméstico em até 50%,. Para os restaurantes, a economia é a mesma, e se o administrador souber como aplicar esses alimentos de forma correta, mantendo os padrões de segurança alimentar, a economia pode ser ainda maior.

Os “cara feia” precisam entrar na sua lista de compras o quanto antes, não só por conta da economia que deve ser parte da responsabilidade de administrar bem seu orçamento, mas também porque ajuda ao produtor a manter uma boa regularidade e renda, melhorando toda a cadeia alimentar, evitando desperdícios gigantescos contados às toneladas todos os dias.

texto – Marcelo Santos
*Marcelo Santos atuou chef de cozinha, professor de gastronomia, consultor de alimentos e bebidas e escritor

 

 

Deixe uma resposta

Márcio Silva: “No Buzina nós fazemos o que a gente gosta, cozinhamos o que a gente come”

Publicidade
Publicidade
© 2017 Infood - Todos os direitos reservados