Visitei, recentemente, a região de Bento Gonçalves, onde conduzi um grupo de recém formados sommeliers do Senac-RJ para descobrirem, na prática, as maravilhas e os rótulos da capital brasileira do vinho.

Conheço a região  de Bento Gonçalves desde 1991 e pude, ao longo desses 26 anos, testemunhar uma verdadeira evolução do vinho brasileiro. Confesso que a cada ida à região, descubro coisas novas, seja rótulos ou técnicas como a
queima de barris por vapor d’água.

O carvalho pode ser aquecido com vapor, água fervente ou fogo, ou ainda utilizando o processo de “wet-fire” que consiste em mergulhar o barril na água fervendo e, completa-se a tosta, com fogo.

Vinícola Luiz Argenta

Iniciamos nossa jornada enológica no último dia 2 de fevereiro – quinta-feira– com uma visita a belíssima e moderna vinícola Luiz Argenta, no município de Flores da Cunha, que nos recebeu calorosamente bem,
abrindo suas portas e nos mostrando o belo trabalho do enólogo Edegar Scortegagna, muito bem integrado com o design das garrafas que são verdadeiras obras de arte e peças de decoração quando vazias.

Vinícola Luiz Argenta, no município de Flores da Cunha

Logo na primeira visita, tive a missão de quebrar a barreira com o vinho nacional, cumprida com o reconhecimento e o fim do preconceito que alguns participantes do grupo ainda alimentavam em relação ao vinho brasileiro. Nesse mesmo momento, iniciava-se um novo desafio, que era manter essa boa impressão e eliminar de uma vez por todas o preconceito com o vinho nacional.

Sabia que estava no caminho certo, pois fiz uma seleção bem criteriosa das vinícolas a serem visitadas. Confesso que meu gosto pessoal influenciou um pouco, mas a escolha, também, se deu pelo fato de cada vinícola ser representativa no mercado brasileiro de vinhos.

Vinícola Almaunica

No segundo dia de visitas, o grupo partiu para um Tour no Vale dos Vinhedos com a primeira parada na vinícola Almaunica, dos irmãos gêmeos Magda e Márcio Brandelli, que pertencem à quarta geração da
família que tem em seu DNA a produção de vinhos.

Vinícola Almaunica fundada em 2008

Eu, particularmente, tenho uma queda toda especial pelo rótulo 4 Castas dessa vinícola, um vinho que me conquistou quando o degustei ainda na época em que prestava consultoria para a Fogo de Chão no Rio de Janeiro.

Foi uma experiência única poder conhecer de perto o cuidadoso trabalho dessa jovem vinícola fundada em 2008.
Fizemos degustação de 6 rótulos e conhecemos um pouco mais sobre a tipicidade da Almaunica.

Famiglia Valduga

Na sequência, partimos para a Famiglia Valduga e, novamente, tivemos uma grande aula com um dos enólogos que nos acompanhou durante a visita e conhecemos a história de uma família com vocação para a vitivinicultura.

Instalações da Vinícola Famiglia Valduga

Nas instalações da Famiglia Valduga, conhecemos, detalhadamente, todo o processo de elaboração dos seus vinhos após, é claro, um rápido e emocionante vídeo sobre a história da família. Ainda tivemos a oportunidade e o prazer de degustar algumas variedades de vitis viníferas e conhecer o sabor da uva ainda no pé.

Don Laurindo

Fechamos a sexta-feira com visita a Don Laurindo na companhia do simpático proprietário Ademir Brandelli que nos recepcionou em sua propriedade acompanhado de seu fiel cachorro que corria sem rumo pelos vinhedos.

Ele nos conduziu pelas instalações da pequena propriedade e ao final da visita nos apresentou seus vinhos deixando o grupo bem a vontade para servir os rótulos que desejassem.

Vinícola Don Laurindo de Ademir Brandelli

Muito interessante essa proposta, pois evita o desperdício durante a degustação e, ainda, deixa os visitantes mais
descontraídos. Tira-se a rigidez das degustações de vinhos. Os rótulos ficam disponíveis no balcão e os visitantes se servem à vontade.

Foi um dia intenso, porém, muito prazeroso, pois conhecemos mais sobre o vinho nacional em 3 estabelecimentos de portes diferentes.

Cave Geisse

O sábado reservava a visita a um dos melhores produtores de espumantes do Brasil e, está, com certeza, entre um dos melhores do mundo. Estou falando da Cave Geisse.

Nossos sentidos são instigados logo quando adentramos a propriedade e vemos pessoas, principalmente casais,
degustando espumantes num belíssimo jardim a nossa esquerda. Taças e garrafas sendo vendidas por um trailer da própria vinícola.

 Trailer da própria vinícola vende taças e garrafas da vinícola

Durante a visita, fomos recepcionados por uma bela jovem que nos deu uma verdadeira aula sobre a vinificação de espumantes. Seus olhos brilhavam enquanto compartilhava seu conhecimento com o grupo de visitantes.

A vindima

Acredito que isso não se deva apenas ao fato de poder compartilhar tudo que sabe mas, também, porque estamos em plena época da vindima e os tanques da vinícola estão cheios de suco de uva se transformando em vinho na elaboração do vinho base.

A vindima é um momento muito especial para os viticultores pois é a coroação de todo o trabalho ao longo
de um ano. É, simplesmente, emocionante ver alguém que ama o que faz. Sem palavras…

Terminamos a visitação com uma das melhores degustações da viagem numa verdadeira experiência organoléptica. Começamos pelo vinho base que depois se transformará no Cave Geisse Nature.

Você já teve a oportunidade de degustar um vinho base? Pois bem, ele apresenta certa turbidez por não ser filtrado e uma acidez bem alta. Mas sua degustação já nos dá uma prévia de como será o espumante. Estará maravilhoso!

Seguindo a lição que aprendemos com o Sr. Ademir Brandelli, da Don Laurindo, de provarmos a matéria-prima em sua origem, ou seja, a uva para entendermos como será o vinho, na Cave Geisse, tivemos outra lição,
que foi provar o vinho base para entendermos como será o espumante.

Essa experiência não se aprende dentro de uma sala de aula, somente na teoria, mas quando se está in loco, ampliamos nosso horizonte e, consequentemente, nosso conhecimento. Nos tornamos profissionais
melhores. São oportunidades que valem muito!

Vinícolas Pizzato

Nessa altura, já havíamos passado da metade da viagem, mas a programação ainda guardava mais algumas surpresas como as vinícolas Pizzato e Lídio Carraro e, claro, a tão aguardada visita a uma tanoaria.

Chegamos a Pizzato logo pela manhã e um dos enólogos – Guilherme – nos aguardava com a sala pronta para mais uma aula com degustação conduzida de forma simples e repleta de informações relevantes.

Uvas colhidas na vinícola Pizzato

Degustamos vários vinhos desta vinícola que é uma das minhas preferidas, e os novos sommeliers tiveram o prazer de conhecer seus incríveis Merlots. Claro que a estrela dessa degustação matinal foi o vinho Concentus, que em latim significa harmonia. Um excelente caldo brasileiro!

Já se imaginou harmonizando um vinho brasileiro com a cozinha asiática?!

Quando trabalhava como sommelier, em 2013, num restaurante de cozinha asiática, coloquei o Concentus na carta e ele harmonizava-se muito bem com a costela Jiajing, uma suculenta costela suína laqueada com  molho agridoce brilhante, servida com chips de raiz de lótus, batata doce, vagem chinesa e fatias de inhame tostados na panela de ferro e regados com mel silvestre. Salivo só em pensar nesse prato!

Outro prato que harmonizava com o Concentus era o Mignon Domburi. Moedas de mignon selados, shitake, cortes de cenoura e folhas de espinafre temperados com sal marinho e especiarias, salteados no óleo de girassol servidos com gohan e regados com um acetinado molho teryaki.

Na tarde de domingo, metade do grupo seguiu para uma experiência cultural de Bento Gonçalves – Maria Fumaça e Epopéia Italiana –, dois passeios que recomendo fortemente a quem visitar o município gaúcho. Inclua esses passeios em seu roteiro.

Vinícola Dal Pizzol

Enquanto parte do grupo vivenciava esta experiência única, a outra metade, que acompanhei pois já havia feito os passeios citados anteriormente, continuou na pegada das vinícolas. Fomos a Dal Pizzol e conhecemos o projeto do Eco Museu.

Vinícola Dal Pizzol e o projeto do Eco Museu

Uma visita autoguiada onde percorremos um espaço com castas de todo o mundo! Incrível conhecer as uvas além dos livros, das fichas técnicas e das aulas dos cursos de vinhos.

No jardim da vinícola pudemos, também, ver o sobreiro – árvore do sul de Portugal onde sua casca é utilizada para a
produção de rolha. Essa árvore também é encontrada na Espanha e em outros países como Itália e França.

Ainda no jardim da Dal Pizzol, o grupo conheceu o carvalho francês – Quercus Rober- e o carvalho americano – Quercus Alba. Em outro artigo abordarei os vários tipos de carvalho e suas influências no vinho.

Vinícola Cristofolli

Depois fomos conhecer a simpática vinícola Cristofolli. Gostei muito de conhecer seu vinho branco feito com a casta Moscatel de Alexandria.

Numa próxima visita à região, desfrutarei da experiência que essa pequena vinícola propõe que é um piquenique em pleno vinhedo.

Vinícola Cristofoli e seu vinho branco feito com a casta moscatel de Alexandria

Estávamos quase encerrando o passeio e, na segunda-feira, 6 de fevereiro, levei o grupo para conhecer como se produz os barris de carvalho. A arte de fabricar barris, tonéis, tinas e outros recipientes de madeira é conhecida
como tanoaria. Também é o nome do local onde trabalha o tanoeiro, o artesão que fabrica esses recipientes.

A Zanetti Barris, com mais 65 anos de tradição, localizada entre Bento Gonçalves e Garibaldi, ficou marcada pela simpatia e simplicidade com que o trio de anfitriões nos recebeu e explicou todo o processo na prática,
fabricando um barril na hora!

Vinícola Lídio Carraro

Na sequência, fomos para a Lídio Carraro, a última vinícola programada antes de retornarmos para o Rio de Janeiro. Fomos recepcionados pela Sra. Isabel, uma senhora simpaticíssima e com profundo conhecimento vitivinícola.

Recebidos em sua casa e sentamos numa sala logo na entrada, assistimos a uma explanação sobre a filosofia purista da Lídio e de seus terroirs em Bento Gonçalves e em Encruzilhada do Sul.

Os vinhedos da vinícola Lídio Carraro

Com toda a didática da dona Isabel, conhecemos os vários tipos de solo e mais de 6 rótulos de praticamente todas as linhas que a vinícola trabalha. Fechamos essa imersão com chave de ouro!

É humanamente impossível conhecer Bento Gonçalves e explorar todas as experiências de uma região riquíssima em cultura e em vinhos.  Bento Gonçalves é pura magia e brinda seus visitantes com rótulos de grande qualidade!

Abra-se para novas experiências dentro do espírito proposto pelo Ibravin e pelo projeto Wines of Brasil, “Abra sua cabeça. Abra um vinho do Brasil”.

Saúde,
Rafael Puyau

 

Serviço :
Vinícola Luiz Argenta
site – http://www.luizargenta.com.br/site/
facebook – https://www.facebook.com/VinicolaLuizArgenta/?fref=ts
Vinícola Almaúnica
site – http://www.almaunica.com.br/
facebook – https://www.facebook.com/vinicola.almaunica?fref=ts
Famíglia Valduga
site – http://www.casavalduga.com.br/
facebook – https://www.facebook.com/casavalduga
Don Laurindo
site – http://www.donlaurindo.com.br/pt-br/
facebook – https://www.facebook.com/Don-Laurindo-214871048536467/?fref=ts
Cave Geisse
site – http://www.cavegeisse.com.br/
facebook – https://www.facebook.com/FamiliaGeisse/?fref=ts
Vinícola Pizzato
site – http://www.pizzato.net/
facebook – https://www.facebook.com/PIZZATO.Vinicola/?fref=ts
Vinícola Lídio Carraro
site – hhttp://www.lidiocarraro.com/
Vinícola Dal Pizzol
site – http://www.dalpizzol.com.br/dal-pizzol/galeria-de-fotos
facebook – https://www.facebook.com/pages/Vin%C3%ADcola-Dal-Pizzol-Rio-Grande-Do-Sul/665803636768937?fref=ts
Vinícola Cristofoli
site – http://www.vinhoscristofoli.com.br/cristofoli
facebook –https://www.facebook.com/VinhosCristofoli

 

Boa compra

A dica dessa semana é um espumante ao estilo dos champagnes mas com DNA brasileiro. É o Dal Pizzol Nature 40 anos.

Região: Serra Gaúcha

Elaborado pelo método tradicional com 25% da cepa Chardonnay que confere elegância e finesse ao espumante e 75% de Pinot Noir vinificado em Blanc de Noir responsável pelo corpo, estrutura e persistência. Ficou em contato com as leveduras por no mínimo de 36 meses, o mesmo período que os champagnes milesimé ficam em contato com as leveduras.

Um espumante que apresenta belíssimo perlage e uma coloração amarelo ouro com reflexos dourados. Possui um aroma complexo sobressaindo as notas de levedo mas com toques de pêssego, amêndoas e torradas. Em boca é bem equilibrado, envolvente ótima acidez e com final persistente.Um vinho para se degustar só ou acompanhado de uma bela refeição!

Temperatura de serviço: 6 – 8ºC

Diretrizes enogastronomicas: feijoada, queijos gordurosos, saladas com molhos ácidos, frutos do mar, crustáceos, peixes e aves.

 

*Rafael Puyau (contato@rafaelpuyau.com.br) consultor-Sommelier com formação em enologia pelo Centre de Formation Professionnelle et Promotion d’Aude (CFPPA) em Narbonne, Sul da França é formado em sommelier pelo Instituto de Vinhos da Argentina. Certificado nível 3 pela Wine and School Education Trust (WSET), escola de vinhos de Londres e consultor empresarial pela Faculdade Arthur de Sá Earp (FASE) em Petrópolis. 
Instagram rpuyau

site – www.rafaelpuyau.com.br

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