Janeiro, férias, sol, praias lotadas, muito calor, turistas espalhados por todos os lados da cidade e tudo isso regado a muitas caipirinhas, águas de coco, sucos naturais e, claro, cervejas. Estamos em pleno verão! Será que há espaço para o vinho no verão?

O vinho tem uma história muito recente no Brasil, se comparada com a história de países europeus, apesar de registros históricos datando de 1532, mas culturalmente não fomos habituados ao consumo de vinhos em nosso dia-a-dia. Este consumo ficou restrito a momentos especiais e, principalmente, mas não exclusivamente, ao glamour.

Crescemos nos habituando a ver nossos pais bebendo cerveja no verão em churrascos, após o futebol de fim de semana, nas piscinas ou nas praias, sem falar na famosa e típica caipirinha, fiel acompanhante da não menos famosa e, também, icônica feijoada. Dessa forma, não podia ser diferente, que nossa percepção, quando adultos, fosse associar, naturalmente, a estação de verão a bebidas refrescantes, deixando o inverno por conta do vinho.

Quem, por exemplo, nunca subiu a serra fluminense para degustar um vinho com um fondue de queijo ou uma batata rostie? Entretanto, não devemos aceitar isso como verdade absoluta e nos resignarmos, porém, é extremamente importante entendermos nossas origens para que possamos construir um futuro diferente e mais democrático, incluindo o vinho nesse novo contexto.

Há muitos vinhos refrescantes como os espumantes, os brancos e os rosés que combinam, perfeitamente, com os dias quentes e alegres do verão brasileiro. Quando analisamos os números e o comportamento do consumidor brasileiro, constatamos que essa realidade vem mudando ao longo dos anos, mas ainda há muito trabalho para ser feito. Estamos no caminho certo!

Você pode substituir a cervejinha da praia por um espumante bem refrescante, porém, para isso é preciso que o vinho vença algumas barreiras, pois, por total desconhecimento e também por simples preconceito, este veranista será taxado, invariavelmente, como esnobe ou louco.

Vale ressaltar que uma das principais barreiras é conseguir colocar o vinho no cotidiano do brasileiro. Para que ocorra essa mudança, é necessário que haja um novo tratamento quanto à precificação do vinho, que em nosso país é elevada devido à alta carga tributária que incide sobre o vinho.

Novamente voltamos ao ponto da questão cultural. Nas praias do Mediterrâneo, ver alguém com uma taça na mão e os pés na areia não é uma cena incomum. Há algumas décadas, aqui no Brasil, ver as pessoas com uma taça de vinho ou espumante na praia era impossível. Mas essa realidade está mudando gradativamente e o mercado de vinhos vem corroborando, se movimentando para mudar essa realidade, atendendo a demanda crescente dos novos consumidores mais esclarecidos e fiéis, com ações simples, inovadoras e bastante interessantes.

Dentre essas, posso citar os carrinhos de espumantes, climatizados e semelhantes aos de picolé, que circulam nas areias escaldantes da orla brasileira, vendendo muitas taças de espumantes, na temperatura ideal, para aliviar o calor dos banhistas. Alguns desses carrinhos são personalizados para divulgação da marca.

O casal Gazi Nóbrega e Larissa Calheiros, empresários do setor, são consumidores assíduos de vinhos e, principalmente, de espumantes, e tiveram a ideia do negócio ao notar que havia uma demanda não atendida nas areias das praias gaúchas. Antes, víamos ações como essa, somente em resorts caros das cidades turísticas do Nordeste, em Florianópolis e nas cidades das regiões do lago e da costa verde no Rio de Janeiro. Agora, basta fincar o guarda-sol na areia, colocar sua cadeira de praia ou estirar sua canga para, em poucos minutos, ver um desses carrinhos dividindo as areias cariocas com o tradicional mate, com o biscoito globo e os diversos vendedores e ambulantes cativos das praias brasileiras.

A Chandon do Brasil já marcava presença nos lounges dos resorts de Angra dos Reis e Búzios, com uma tenda de seus espumantes. A marca teve uma grande importância para levar o vinho além das mesas dos restaurantes e hotéis. Já nas praias do Sul, a Miolo Wine Group foi a primeira a explorar o nicho vendendo espumantes na areia. O objetivo da vinícola gaúcha, quando iniciou em 2010, era mudar o costume de tomar espumante apenas em ocasiões especiais.

Os espumantes, principalmente, os champagnes sempre estiveram ligados à moda e ao estilo de vida. A intenção e a ideia são muito boas, mas há aceitação por parte das pessoas? Para responder a esse questionamento, trago alguns números. A Miolo Wine Group vendeu 2 mil espumantes na praia em apenas 2 semanas. Em 2016 a Champs da Praia introduziu o WhatsApp para facilitar o atendimento a seus clientes quando o carrinho não estivesse por perto. Entre o Réveillon e o Carnaval são consumidas, por dia, uma média de 120 garrafinhas de espumante, que podem ser de 250 ml ou de 187 ml. Esse número aumenta para 250 unidades por dia quando as praias estão lotadas.

Os estilos de espumantes mais utilizados, nesse serviço, são o Brut e o Demi-sec. Hoje as garrafas vêm dentro de saquinhos com gelo para manter a temperatura da bebida. Em Búzios, um dos pioneiros nessa caminhada para formar um mercado de vinhos mais democrático e sem tanto esnobismo, foi o Murilo Biagi que, em 2012, após ver os carrinhos num desmonte, pensou em pegá-los, pois já tinha a intenção de ajudar os amigos com a venda móvel de itens dos artistas locais. Chegaram aos espumantes, aos vinhos brancos, vinhos verdes e aos rosés, após conversas sobre como ganhar mais e ajudar mais pessoas.

Num bate-papo descontraído, Murilo disse que seus principais desafios foram a montagem da equipe com pessoas que jamais tiveram contato com este tipo de bebida, ensiná-las a degustar, harmonizar, resfriar, a falar os nomes dos rótulos e uvas. Porém, segundo ele, foi a parte mais divertida. O principal desafio enfrentado foi ajustar os fornecedores. Quem escolhe o rótulo e a quantidade é o público e não o prestador do serviço.

O clima e a natureza de Búzios favoreceram a escolha do local, sem contar que há um público sedento por novidades e facilidades. Em breve o projeto de Murilo será expandido e chegará a Lagoa e a praia do Leme. Os testes iniciarão tão logo recebam as devidas autorizações. No início, as pessoas reagiam à abordagem e questionavam se os vinhos eram doces, se podia colocar gelo, se tinham canecas geladas entre outras tantas perguntas. Foram 6 meses até acertarem e explicarem os diferentes estilos de espumantes ao público consumidor.

Percebeu-se, também, que as mulheres são mais receptivas, porém, ao entardecer, o público masculino adere a ideia. Vimos que, por questões culturais, a caipirinha e a cerveja são as bebidas alcoólicas prediletas do brasileiro para o verão, porém, há um mercado muito promissor e carente onde o vinho pode e deve preencher essa lacuna.

Não encare essas bebidas como concorrentes diretas ao vinho. Elas são produtos substitutos e o que reger a escolha será o momento e a experiência que cada veranista deseja. A oferta desses produtos amplia a experiência do consumidor.

Pare de tratar o vinho de forma elitista, repense seu lugar à mesa e, principalmente, no dia-a-dia do brasileiro. Dependendo da ocasião, do prato, da estação do ano, do humor, do estado de espírito e do estilo de vida de cada um, sempre haverá um vinho para harmonizar perfeitamente. Para tanto, você deve manter sua cabeça e seu coração abertos a novas experiências e explorar esse universo tão vasto que é o mundo dos vinhos. Nunca esgote as possibilidades. Lembre-se sempre disso!

Saúde!

Boa compra

Dicas Enológicas – Boa Compra A dica dessa semana é o Aracuri Brut Rosé, um espumante brasileiro da vinícola Aracuri de Campos de Cima da Serra composto por 70% Pinot Noir e 30% Chardonnay. Este espumante elaborado com o método charmat, é perfeito para o verão! Com uma cor encantadora, esse espumante apresenta um perlage fino e constante. Em nariz, nota-se aromas de damasco com um toque floral bem delicado. Tem um bom volume em boca, com uma mousse delicadamente cremosa, acidez viva, trazendo o frescor das frutas vermelhas com leve um toque mineral que se integra bem aos aromas frutados. Temperatura de serviço: 6 – 8ºC Diretrizes enogastronomicas: frutos do mar, peixes em geral, carnes brancas, molhos pouco condimentados, legumes crus e queijos leves.

Texto – Rafael Puyau
 *Rafael Puyau (contato@rafaelpuyau.com.br) consultor-Sommelier com formação em enologia pelo Centre de Formation Professionnelle et Promotion d’Aude (CFPPA) em Narbonne, Sul da França é formado em sommelier pelo Instituto de Vinhos da Argentina. Certificado nível 3 pela Wine and School Education Trust (WSET), escola de vinhos de Londres e consultor empresarial pela Faculdade Arthur de Sá Earp (FASE) em Petrópolis. 
Instagram rpuyau

site – www.rafaelpuyau.com.br

 

banner_coluna

Deixe uma resposta

Semana 49# Os restaurantes de cozinha vegetal ganham mercado

Publicidade
Publicidade

Para receber a newsletter Infood, digite seu e-mail no box abaixo e clique na seta.

© 2017 Infood - Todos os direitos reservados