Aos 82 anos, Fuad Zegaib gosta de sair para comer massa e pizza em São Paulo. Sua preferência é justificada pelo fato de já passar um bom tempo comendo carnes em seu próprio restaurante, o Dinho’s. Criado há mais de 50 anos, a casa tem a carne como sua especialidade e foi a primeira no país a servir picanha.

O Dinho’s está conectado à palavra inovação. Desde a apóstrofe em seu nome (nenhum outro restaurante havia utilizado o sinal) até a instalação do primeiro ar condicionado dentro de um restaurante em São Paulo, o estabelecimento apostou em grandes novidades.

“A inovação, na abertura de qualquer restaurante, traz clientela. Principalmente quando as novidades são vantajosas para o cliente” afirma Zegaib.

Em 1960, o restaurante foi inaugurado com o nome de Espeto de Ouro. No entanto, após sugestão de alguns clientes e devido ao fato do nome inicial já ter sido registrado previamente, a casa virou Dinho’s Place e, mais tarde, somente Dinho’s.

Fuad Zegaib e seu filho, Paulo, tocam a casa atualmente: “Ele (Paulo) é o meu sucessor”. Alguns planos de expansão, por exemplo, já nem ocupam a cabeça do fundador da casa: “Eu não tenho projeto para isso, porque eu já passei da idade de fazer coisas novas”.

Dinhos foi uma das primeiras  casas a oferecer ar condicionado

A história profissional de Fuad Zegaib, no entanto, tem início na abertura da primeira academia de ginástica de São Paulo, o Clube Atlas. Vindo de uma família de halterofilistas e tendo em mente que poucas pessoas tinham condições de fazer ginástica em algum lugar na cidade, Fuad e um sócio abriram o negócio, que tinha aproximadamente 100 metros quadrados e localizava-se na Bela Cintra.

A academia, que ganhou 150 alunos somente no primeiro mês, tornou-se um sucesso. Com a proliferação de academias e tendo que ganhar mais dinheiro, Fuad deicidiu abrir um restaurante que pudesse ser iniciado com pouco capital.

A mesa de doces da casa

Sem poder investir muito e com 22 anos à época, “Dinho” (como é carinhosamente chamado) abriu o primeiro restaurante em balcão da capital paulista, já que em todos os outros existentes, como os italianos, portugueses e alguns poucos franceses, os clientes ficavam apenas sentados.

No Simbad, que era uma casa de lanches, o empreendedor também obteve sucesso e apostou em lanches que não eram comercializados nesse tipo de estabelecimento, como o hambúrguer e o hot dog: “Fazíamos um filé com fritas, uma pizzinha, um misto quente, um bauru. O Simbad foi de um sucesso maravilhoso, e o vendi em 1959 para abrir o Espeto de Ouro”.

Espetinho de filé mignon, bacon, tomate, cebola e molho vinagrete agridoce em um pão de hot dog. Esses eram os componentes do sanduíche “Bossa Nova”, que foi um dos sucessos da nova casa. “Eu havia visto um sanduíche semelhante no Rio de Janeiro e o aperfeiçoei. Tinha dia que vendíamos 1000 sanduíches” confessa Fuad.

A aposta no churrasco veio somente alguns anos depois, após Dinho montar uma churrasqueira na parte frontal da casa e fazer uma exposição para a rua. O público que passava podia ver toda a ação, e essa estratégia foi um sucesso absoluto. Inicialmente, a casa fazia os pedidos mais comuns, como o filé mignon, o contra-filé e o lombo de porco.

Abrir um restaurante na década de 60, segundo Fuad, era muito mais fácil do que hoje em dia. “Havia, no máximo, 10 restaurantes na acepção da palavra em São Paulo. Apenas para um comparativo: hoje você tem 10 mil restaurantes, de todos os gêneros. Era muito mais fácil vencer com um restaurante” disse Fuad, que buscava conhecimento sobre o universo gastronômico nos livros. “Eu ainda não viajava, então tinha que sempre ler alguma coisa” completa.


“Havia, no máximo, 10 restaurantes na acepção da palavra em São Paulo. Apenas para um comparativo: hoje você tem 10 mil restaurantes, de todos os gêneros”

Quando a concorrência começou a crescer, Fuad percebeu que era a hora de partir para algo diferente. A primeira novidade lançada durante um período “muito bonito” de inovações foi a mudança no tipo de gado.

Na época, Fuad era amigo do presidente nacional da Swift, que ainda pertencia aos EUA. Quando o presidente internacional da marca foi visitar a fábrica da empresa em São Paulo, o presidente nacional indicou a casa do amigo, e ainda disse para Fuad: “vou te mandar uns traseiros, para você servir a carne do gado Santa Gertrudis para o presidente”.

“Aquilo era tão maravilhoso, comparado ao nosso tipo de gado, que pensei: ‘eu preciso continuar com essa carne’. Após aproximadamente um ano, consegui essa carne” comenta Fuad, que, então, publicou no Estadão e na Folha um anúncio dizendo que o Dinho’s servia agora o churrasco do Santa Gertrudis.

O resultado foi impressionante: “vinha gente de tudo o que era lugar para experimentar. Tinha fazendeiro e açougueiro que nem sabia o que era Santa Gertrudis. Todos queriam conhecer”.

Essa inovação, resultado de muito estudo de Fuad, encabeçou uma lista de diversas outras: “tem tanta coisa para falar que dava para fazer um livro”.

Uma história curiosa é a sobre a instalação do aparelho de ar condicionado: “Na parte nova do restaurante, eu tinha uma parte aberta, com jardim lá fora. E vinha muito mosquito e inseto. Decidi fazer algo a respeito e me informaram que o ar solucionava esse problema. E nunca mais tive mosquito na casa”.

Por ter aberto uma casa que tratava a carne de uma maneira diferenciada, utilizar toalhas de linho nas mesas e contar com garçons vestidos em belos uniformes, perguntei a Fuad se o Dinho’s não seria classificado como: “churrascaria gourmet” se fosse aberto nos dias de hoje. “Não. Gourmet é para uma casa um pouco menor. Nunca me vi como gourmet”.

O Dinho´s publicou no Estadão e na Folha um anúncio dizendo que servia agora o churrasco do Santa Gertrudis.

Fuad já teve um sócio, que passou 22 anos com ele e com quem separou a sociedade. Havia quatro unidades, e o proprietário do Dinho’s ficou com duas, enquanto o outro sócio ficou com as outras. As duas de seu sócio foram fechadas.

“Eu comecei sozinho e, para a ampliação, entrou o meu sócio. Mas ele, lastimavelmente, não se interessou pelo ramo. Ele queria um ramo para ganhar dinheiro, mas não teve o conhecimento que eu tive, por exemplo, de fritar uma batata. Quando você não tem o interesse e o conhecimento do negócio – apesar de estar em uma casa já consagrada – você acaba fechando”.

Sobre as facilidades de ter um negócio gastronômico antigamente, Fuad diz: “você tinha mais facilidade por conta do menor número de restaurantes. Antes você escolhia o empregado. Hoje, você tem o empregado que você tem que suportar e precisa preservar um clima de amizade para manter um empregado de 30 anos. Você não estabelece um paredão: o empregado e o patrão. Você tem que estar com ele, ajudando-o a servir. Fazendo o seu trabalha junto às mesas, em conjunto, para ter um bom serviço. Na ocasião, era muito mais fácil”.

Em relação ao futuro, Dinho diz não estar otimista, assim como “o jornal e a televisão”. “Eu já passei da idade de fazer coisas novas e me submeter à intempérie da economia, política e um monte de coisa”. Chegar a uma margem de lucro de 15%, segundo o fundador do restaurante, é maravilhoso.

Pergunto a Fuad se ele consegue chegar nessa marca e ouço: “em alguns meses, sim. Em outros, temos até prejuízo”. “Vemos muita gente que está vendendo seu estabelecimento em nosso ramo porque não deu certo. O lucro é baixo, e, às vezes, nem existe”.

“Quando você não tem o interesse e o conhecimento do negócio, você acaba fechando”

Algumas lições retidas durante o experiente percurso são: “escolha o local ideal para o seu restaurante”, “tenha um conhecimento profundo”, “não faça dívidas” e “saiba como tratar o cliente”.

Fuad e Paulo Zegaib, pai e filho, trabalham de uma forma muito tranquila em relação ao aspecto financeiro, já que têm capital próprio. “O ano vai ser difícil. Nesses primeiros meses, isso já foi demonstrado. Pode ser que em 2015 a gente faça um outro restaurante ou compre outro transformando em Dinho’s”.

A transformação de dez para dez mil restaurantes na metrópole paulista reflete, segundo Fuad, a gastronomia mais diversificada – “ e uma das melhores” – do mundo. “Gosto de ir à restaurantes franceses. Como eu não como muito, gosto de pratos que venham em pequenas porções”.

Aos 82 anos, Fuad Zegaib é um dos pioneiros da gastronomia no Brasil

Serviço:

site http://www.dinhos.com.br/home
facebookhttps://www.facebook.com/restaurantedinhos/?fref=ts

Alameda Santos 45 – Paraíso – São Paulo


Por Vinícius Andrade
Fotos: Fernanda Moura

2 ideias sobre “Fuad Zegaib: Dinho´s uma marca construída com inovação”

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