Criada em 2006 por David Hertz e Ernani Gouvea, a Gastromotiva tem a missão de fazer com que a gastronomia seja ferramenta de inserção social. Em nove anos de história, o projeto já formou 22 turmas e, aproximadamente, 1200 alunos.

No entanto, a Gastromotiva não se limita somente ao oferecimento de qualificação dentro da cozinha. Hertz e Gouvea viram que sua ideia também tinha papel na democratização da gastronomia. “Normalmente, a gente ainda relaciona a gastronomia a uma coisa da elite, de poucas pessoas. O papel da Gastromotiva é levar a gastronomia para as comunidades mais carentes” afirma Gouvea.

Contando com patrocinadores, voluntários e universidades que cedem salas de aula, o Gastromotiva já atua em 3 cidades (Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo) e tem planos para abrir mais duas turmas em Curitiba.

A INFOOD conversou com Ernani Gouvea, que contou a história do projeto, casos de ex-aprendizes e explicou a estrutura da Gastromotiva, que também faz um trabalho de valorização da gastronomia como cultura brasileira: “Assim com o Peru conseguiu colocar a gastronomia peruana em âmbito internacional, o Brasil também pode. É uma questão de valorizar o que é nosso”.

Gastromotiva (116)

 

INFOOD – Ernani, você é coordenador dos projetos educacionais na Gastromotiva. Como surgiu a ideia de montar esse projeto? Como você chegou até isso?

ERNANI GOUVEA – A história se inicia comigo e com o David Hertz. O David via que, no mercado gastronômico, as pessoas não tinham qualificação dentro da cozinha. Além disso, ele via na cozinha uma oportunidade de capacitação de pessoas. Capacitar chefs é muito legal, mas a gente precisa capacitar auxiliares também, que possam chegar a ser chefs. Os maiores chefs de cozinha, geralmente, são pessoas que aprenderam na prática. E esse é um dos nossos pilares: o aprendizado pela prática. Uma oportunidade de capacitar pessoas e de tornar esse tipo de capacitação mais democrático ao público em geral, já que a faculdade de gastronomia é muito cara. Poucas pessoas podem pagar. Então a gente enxergou isso. Na minha vivência em educação, eu nunca fui por um caminho muito formal de educação, queria criar uma nova maneira de se educar. Eu acho que o conceito de escola precisa ser revisto. Queria, então, criar uma alternativa de educação fora da escola. A gente juntou as duas forças e a Gastromotiva nasceu dessa ideia, dessa oportunidade.

INFOOD – Além de você e do David, houve mais alguém que foi responsável pelo projeto?

ERNANI –  Sim. Uma jovem chamada Uridéia Andrade. Essa moça participou de um outro projeto anterior à Gastromotiva, em que eu e o David participamos, embora a ideia não tenha sido nossa. A Uridéia foi uma aluna formada nesse projeto, mas queríamos que ela continuasse. Ela é uma inspiração para o projeto do Gastronomotiva, porque a gente viu que o negócio deu certo. 

INFOOD – Você já atuou em gastronomia? Gosta de cozinhar?

ERNANI – Eu sempre gostei muito de cozinhar: cozinha para mim sempre foi uma coisa bem interessante. Nunca tive um aprendizado formal, não sou chef, mas vejo na cozinha uma ferramenta de educação fantástica.  Sempre gostei da gastronomia, mas quando enxerguei essa possiblidade, me apaixonei, e me apaixono a cada dia mais. 

INFOOD – Quando a Gastromotiva foi fundada?

ERNANI – Em setembro de 2006. A gente iniciou uma turma em 2007. Além da capacitação de auxiliares de cozinha, a gente ampliou um pouco a nossa visão. Percebemos que a gente ajudava na democratização da gastronomia. Normalmente, ainda relacionamos a gastronomia a uma coisa da elite, de poucas pessoas. O papel da Gastromotiva é levar esse conceito para as comunidades mais carentes.

Gastromotiva (20)“Vejo na cozinha uma ferramenta de educação fantástica”

INFOOD – Além de promover cursos de capacitação, a Gastromotiva também trabalha em outras frentes?

ERNANI – O que tem se tornado uma das nossas grandes iniciativas é promover eventos, onde grandes chefs de cozinha são convidados. Esses eventos, como jantares beneficentes, também mostram para as pessoas que já têm a gastronomia no sangue, que a gente precisa levar esse conceito para um maior número de pessoas. A Gastromotiva funciona como uma ponte.

INFOOD – Quantos jovens já se formaram até o ano passado?

ERNANI – Desde 2006, a gente já teve 22 turmas formadas e aproximadamente 1200 alunos. Atualmente contamos com duas turmas em São Paulo, duas no Rio de Janeiro e uma em Salvador. Três dessas já estão em andamento neste ano, mas a partir do dia 23 de março as cinco já terão começado.

INFOOD – Como vocês financiam o projeto e os cursos? Existe alguma forma das pessoas poderem ajudar vocês?

ERNANI – Muitas formas (risos). A gente só sobrevive porque é ajudado pelas pessoas. Temos os patrocinadores, que são fundamentais para a execução desse serviço. As nossas universidades parceiras cedem espaço para as cozinhas. Ainda assim, a gente tem que pagar os professores. Mesmo que o cara queira reverter para gente esse dinheiro, primeiro pagamos e depois ele reverte. A gente tem uma rede de restaurantes que nos ajuda, que entende a importância da causa. Os cursos de gastronomia são muito caros, e os técnicos oferecidos, às vezes até pelo governo, são muito superficiais e rápidos, acabam não preenchendo essa capacitação de forma satisfatória. E contamos com muitos voluntários, para coisas pontuais e outras maiores. As pessoas podem colaborar voluntariando-se para ajudar a causa.

INFOOD – Existe uma grande aceitação do profissional formado por vocês pelo mercado. Vocês divulgam uma empregabilidade por turma de aproximadamente 80 a 90% em um ano. Como vocês conseguem isso?

ERNANI – Conseguimos esses números porque existe esse buraco no mercado. O que acontece é o seguinte: as universidades formam chefs. Aí ele chega para trabalhar em um restaurante e dizem: “não, você não pode ser chef. Você vai começar lá na pia”. A gente treina o nosso aluno para que ele já comece lá na pia, porque a gente sabe que esse é o caminho. 

Nosso curso não é de formação de chef. Em panificação, por exemplo, eles vão aprender o básico de pão. Em confeitaria, o básico de confeitaria, os tipos básicos de bolo, torta. Mas de uma forma básica. Nada é muito aprofundado. Eles têm aulas de vinhos, não para formar enólogos, mas para eles entenderem o mundo dos restaurantes.

Gastromotiva (112)“A gente treina o nosso aluno para que ele já comece lá na pia, porque a gente sabe que esse é o caminho” 

INFOOD – Como estão estruturados os cursos da Gastromotiva?

ERNANI – Ao total, são 280 horas de curso, todos os dias na semana, durante aproximadamente 4 meses. Nossos alunos fazem visticas técnicas, como visita ao Mercadão de São Paulo, visita a uma horta comunitária, a alguns restaurantes, para eles entenderem a dinâmica lá dentro. A maior parte das aulas são práticas, mas temos algumas teóricas. O curso está estruturado em técnicas básicas de gastronomia, panificação, confeitaria, cozinha quente, cozinha fria, ecogastronomia (um olhar mais sustentável para a atividade) e uma parte que é mais para falar do desenvolvimento pessoal, de equipe. Essa questão da equipe, para nós, é fundamental. E postura profissional: tem uma pessoa que a gente sempre convida para explicar o que é uma postura profissional, como você faz um currículo, como você deve se comportar em uma empresa. O que é trabalhar para uma grande empresa.

INFOOD – Você tem alguma história sobre algum dos profissionais que passou pela Gastromotiva durante esses nove anos de história?

ERNANI – A gente teve um evento agora, e aí eu e o David saímos do evento e fomos comer na Lanchonete da Cidade. A gente entrou numa unidade, pedimos um hambúrguer, olhamos e eu falei: “conheço esse cara”. E ele veio se aproximando, se aproximando. E eu vi que era um ex-aprendiz. Esse menino fez o curso da Gastromotiva, começou a trabalhar na lanchonete, hoje ele é gerente daquela loja e está sendo convidado para ir ao escritório da empresa, para dar treinamento a outras pessoas. O nosso ex-aprendiz não deixou a gente pagar a conta. Ou seja, valeu a pena todo o trabalho (risos). Ele virou para nós e falou: “eu só poderia estar aqui porque eu passei pela Gastromotiva”.

INFOOD – Como vocês fizeram acordo com as faculdades onde as aulas acontecem?

ERNANI – Usando muito o coração. O David já tinha um bom relacionamento com a Faculdade Anhembi Morumbi porque era docente de lá. A Anhembi foi a primeira universidade que a gente bateu na porta. Eles sempre nos receberam super bem, desde 2008. A UNIFAX em Salvador é da mesma rede da Anhembi. E a UNISUAN (Rio de Janeiro) foi por meio de pessoas, chefs do Rio. Nossa intenção é que as pessoas se mobilizem pela causa. Chamamos chefs de cozinha, restaurantes, apoiadores. Claro que as parcerias acontecem também pela seriedade do nosso trabalho, mas elas são formadas por amor. 

INFOOD – Como vocês fizeram para que os restaurantes chegassem até o pessoal que vocês estão formando?

ERNANI – A gente foi até os restaurantes. Batemos na porta, falamos sobre a nossa causa. Acho que é muito importante a parte da divulgação, porque isso atrai mais pessoas. Isso também aconteceu pela facilidade do David no meio gastronômico, ele é chef de cozinha e conhece muita gente. Isso ajudou. E eventos.

Gastromotiva (80)Claro que as parcerias acontecem também pela seriedade do nosso trabalho, mas elas são formadas por amor”

INFOOD – Quais são as metas da Gastromotiva para o futuro? Alguma novidade para este ano?

ERNANI – Nosso grande desafio em 2015 é abrir duas turmas em Curitiba. Isso ainda não foi completamente finalizado, mas estamos em negociação e esse é o próximo desafio desse projeto. No fim do curso, os alunos promovem como se fosse um trabalho de conclusão do curso, e a gente chama de TAC (Trabalho de Ação na Comunidade). Eles são convidados a passar para a comunidade que eles aprenderam, em uma forma da gente impactar mais pessoas ainda – inclusive aquelas que não puderam fazer o curso. O tema deste ano é alimentação infantil. A gente vai fazer os alunos desenvolverem oficinais que envolvam pais, crianças, merendeiras, para trazer a consciência de uma alimentação infantil mais saudável. Acreditamos que não é só trazer o aluno, mas fazer com que ele repasse o que aprendeu, porque aí o impacto é maior. 

Um desafio pessoal meu é desenvolver um relacionamento a longo prazo com os alunos, para acompanhá-los de perto no futuro. É um desafio olhar para essas pessoas, porque elas podem retornar para capacitar outras. A gente convida ex-alunos para darem aula, porque uma pessoa que foi ex-aluna sabe o valor daquilo. É muito diferente de botar um chef professor. 

INFOOD – Falando do cenário atual da gastronomia, como você enxerga o trabalho da Gastromotiva?

ERNANI – Assim com o Peru conseguiu colocar a gastronomia peruana em âmbito internacional, o Brasil também pode. Hoje em dia você vai para qualquer lugar do mundo e tem restaurante de ceviche. É uma questão de valorizar o que é nosso. Temos um problema muito grande de desvalorização do que é nacional. A gente não valoriza o que é nosso. Se o Brasil entender que pode se valorizar pela gastronomia, pela sua comida, sua tradição alimentar, a gente pode colocar a gastronomia brasileira como sendo embaixadora da cultura brasileira. E a Gastromotiva está aí para democratizar esse termo, que ficou muito ligado à elite. E tem muita gente que já acordou para isso, mas nós ficamos muito ligados ao padrão lá  de fora. A gente vê os Outbacks da vida, que não têm nenhuma relação com nosso país. Nada contra, porque adoro ir para um restaurante italiano, francês, tailandês, etc. Porém, por que, no Brasil, uma rede australiana faz tanto sucesso? Por que a gente vê um Mc Donald’s em cada esquina? A gente adora ir para um boteco, mas na hora de falar onde fomos comer, falamos “em um restaurante francês”. Parece que soa melhor.

 

Serviço:

Gastromotiva

sitehttp://www.gastromotiva.org/pb/

facebook – https://www.facebook.com/gastromotiva/

 

Por Vinícius Andrade
Fotos: Fernanda Moura

 

Deixe uma resposta

Thomas Troisgros: “Há uma grande procura por casas com comida mais despojada”

Publicidade

Publicidade
-->
-->

Para receber a newsletter Infood, digite seu e-mail no box abaixo e clique na seta.

© 2017 Infood - Todos os direitos reservados