O relógio marca uma hora da tarde. Heddyller Silveira, 36, sabe que tem três horas para começar a arrumar as coisas em sua pizzaria, de forma que o horário de abertura do delivery seja cumprido. Desde às 9h, o empreendedor está dentro de uma feira livre localizada perto da estação Vila Madalena do metrô, trajando uma doma, calça jeans e um confortável tênis esportivo. Em um compartimento similar àqueles utilizados pelos serviços de entrega de comida, encontram-se diversos tipos de massas e molhos, preparados com ingredientes selecionados pelo chef.

Quando era jovem, Heddyller – ou apenas “Ed”, como é chamado por todos – nunca pensou que se envolveria com o ramo de alimentação. No entanto, ele nunca gostou muito de estudar: “terminei o segundo grau, mas nunca me identifiquei com uma profissão, como médico ou dentista. Sempre quis ter meu próprio negócio”. Aos 17 anos, Ed precisou ser emancipado para abrir uma lanchonete, que era de uma patroa de sua mãe.

“Eu não decidi seguir pela gastronomia. A gastronomia que me buscou” afirma o cozinheiro, com passagem pelas pizzarias Bráz, Primo Basílico, Carcamano e Campana. Há alguns anos, quando o desemprego em São Paulo atingia – segundo o empreendedor – “níveis muito altos, de uns 25%”, qualquer emprego era capaz de agradar, Ed começou a trabalhar como garçom com um dos donos da Bráz. O dono gostou do rapaz, convidou-o para trabalhar em Florianópolis, mas como pizzaiolo: “ele gostou tanto que não quis mais me tirar do forno”.

Como um pizzaiolo, porém, vai parar em uma feira?

chef de cozinha“Eu não decidi seguir pela gastronomia. A gastronomia que me buscou”

A ideia da feira não veio da cabeça de Ed. Aliás, uma de suas frases resume bem sua relação com os seus negócios: “eu não sou um criador. Sou um copiador”. Ao ouvir um amigo, que havia vendido alguns pratos e produtos em um parque, Ed gostou da ideia e começou a pensar onde em São Paulo era possível encaixar o seu produto:“de um estalo, veio a feira”. O pizzaiolo, então, arquitetou tudo e pensou, inclusive, em se vestir de chef de cozinha para chamar a atenção de quem passa por lá.

A princípio, a venda de massas na feira é somente um complemento de sua renda: “quando estou super bem de grana, eu não faço a feira”. Mas Ed garante gostar muito do ambiente, principalmente pelo contato com as pessoas, que acabam conhecendo sua pizzaria – a Forneria Morumbi.

No ramo de alimentação há 20 anos, Ed passou por situações muito delicadas, como quando descobriu que seu sócio o havia roubado em seu primeiro negócio. Ou quando os primeiros meses da Forneria Morumbi foram um fracasso e seu padrinho – que também era sócio do negócio – desistiu do projeto. O dono – assim como sua empresa de sobremesas – quebrou e foi obrigado a pegar financiamento atrás de financiamento.

Ed, contudo, garante estar tranquilo, embora tenha que lidar com uma dívida: “meu faturamento não me permite pagar a dívida, mas me permite viver bem”. A qualidade de vida é um dos pontos mais valorizados pelo pizzaiolo, que não abre mão de suas duas horas de fut-volêi, sua natação e seu tempo com a namorada. “Eu não vou ficar rico. Mas não me incomodo, pois aprendi a viver. Aprendi que você não precisa ter dinheiro para ser feliz. Claro que todo dia eu estou aqui batalhando, mas não preciso disso para viver bem. Já me estressei muito com isso e vi que não vale a pena” afirma Ed.

chef de cozinha1“Meu faturamento não me permite pagar a dívida, mas me permite viver bem”

A qualidade de seu produto, em sua opinião, é algo extremamente essencial. Sua pizza de mussarela, que custa R$32 (contra os R$25 de seu concorrente), possui o mesmo queijo utilizado na pizza de mussarela da pizzaria Brás, que é vendida a R$48. “Eu aprendi a trabalhar com coisa boa. Se eu colocar um produto ruim na minha pizza, não consigo nem dormir” garante o chef.

Um sistema de negócio muito formal não é algo de que Heddyller goste tanto: “eu prefiro aquele ambiente que você encontra quando vai almoçar na casa da sua avó”. Embora sua pizzaria funcione atualmente somente como delivery, Ed pensa em abrir o salão da Forneria Morumbi, com um conceito descolado, informal e simples. Na entrada de sua pizzaria, há uma frase em italiano que significa: “Deus, abençoe essa bagunça”.

Ed gosta sempre de viver com “os pés no chão” e, portanto, seus planos em relação a sua pizzaria não são muito altos: “2015 é o ano de tocar o negócio e chegar no faturamento que eu quero. Depois que isso acontecer, vou juntar uma grana e pensar no próximo passo” disse o empreendedor, que completa: “meu sonho é pequeno: não tenho essa ambição que as pessoas têm pelo dinheiro. Quero ser feliz”.

De todos os anos trabalhando com gastronomia, Ed afirma que a maior lição aprendida foi a de sempre persistir: “se você tem o produto no qual confia, não desista. Eu tive mais de 100 motivos para desistir dessa minha última pizzaria. Mas, se você acredita no seu negócio, vá até a sua última gota de suor”.

Com o hábito de reinventar e dar o seu toque a algumas de suas pizzas preferidas da cidade (suas pizzarias preferidas, aliás, são homenageadas nos nomes das pizzas de seu cardápio) – Ed não esconde sua simplicidade: “não vou falar que eu sou um superchef, que eu gosto de ficar criando, porque é mentira. Eu sou empreendedor”. Em relação aos segredos de seu empreendimento, o copiador vai direto ao ponto: “eu não tenho. Se tivesse, estaria rico”.

chef de cozinha2“Se você acredita no seu negócio, vá até a sua última gota de suor”

 

Forneria Morumbi
(11) 3501-5099 / (11) 3876-1569
www.forneriamorumbi.com.br

Por Vinícius Andrade
Fotos: Fernanda Moura

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