O restaurante Roberta Sudbrack fechou as portas depois de muito sucesso no mercado do Rio de Janeiro. Presente desde a primeira edição do guia Michelin no Brasil, o restaurante havia mantido sua estrela no ano passado, além de acumular diversas outras premiações.

Parece que voltamos para o início de 2016, ou então o sentimento é o mesmo. Começamos o ano e o Brasil perde novamente uma estrela Michelin, e isto ocorre também com o fechamento de um restaurante. Em 2016 foi o Epice.

A cozinheira Roberta Sudbrack comunicou no facebook o fim das operações de seu restaurante

Um comunicado no facebook

Em um comunicado no facebook, que abaixo reproduzimos, Roberta anunciou o fim do restaurante e seus motivos:

“E então no dia 30 de dezembro de 2016, fizemos um jantar lindo! Aquele serviço corrido e agitado, com a casa lotada, que todos os cozinheiros adoram. Ninguém sabia que aquele seria o último jantar de um lugar que marcou uma época e foi pioneiro na construção de uma linguagem: A linguagem da moderna cozinha brasileira.
Um lugar que alçou voos altíssimos e ousou mais do que qualquer outro. Lançou tendências e influenciou uma geração a pensar mais! Pensar sobre cada parte de qualquer ingrediente e o que fazer com ela: O que estamos fazendo? Porque estamos fazendo? Como vamos fazer? Como podemos fazer melhor?
Ali mostramos ao mundo que sementes de quiabo são caviar… Que patinhas e antenas de camarão contam uma história. Que abóbora crua é sensacional! Que pão queimado é potencializador de sabor. Que jaca tem nuances de delicadeza. Que maxixe é versátil e chuchu tem sabor, sim Senhor!
Na lista do Le Monde dos 12 melhores pratos de 2016, Mochi de Aipim e matcha de Taioba do Roberta Sudbrack
No RS sempre se cozinhou apenas com as mãos, o fogo e a mente. Em tempos de cozimentos tecnológicos de alta complexidade, levamos uma parrilha – presente do amigo Francis Mallman – para dentro da cozinha e iniciamos uma jornada de novas descobertas e desafios.
Dominar o fogo? Simplesmente impossível. Mas espera aí, vamos tentar! Eliminamos as frigideiras e nos atiramos de cabeça nesse novo voo. Fizemos tudo! Antes de todos. Mas faltou uma coisa…
Há seis anos uma Senhora me parou no meio da rua no Leblon. Conhecia toda a minha história de vida, desde ter vendido cachorro quente pelas ruas de Brasília. Até o nome da vó Iracema. E do meu cachorro, o Frederico, meu grande companheiro que viu o RS nascer e o frequentava com uma alegria genuína.
Essa Senhora me abraçou e no meio daquele abraço me disse: “Adoro você, sua coerência e a sua história de vida Roberta Sudbrack! Mas que pena, nunca poderei ir ao seu restaurante.”
Isso me consome há anos. A ideia de que tanta gente que me acompanha, se inspira e se conecta com o meu trabalho, às minhas crenças e à minha filosofia, não tiveram sequer a chance de comer a minha comida, me atormenta há anos.
 A terça básica já refletia suas inquietações: uma experiência de altíssima qualidade e preços acessíveis
O RS não fechou a sua porta porque a crise bateu nela. Ela bateu sim. Nós sentimos sim. Mas poderíamos seguir. Alta gastronomia séria nunca deu dinheiro. Nem nunca dará. É quase um princípio básico. O RS encerrou o seu ciclo porque eu não acredito mais na forma, como acredito no conteúdo.
A comida de rua me fez ver isso muito claramente. Voltar às ruas e encarar o público nos olhos me fez ver isso. Eliminar excessos é preciso. Repensar a forma é preciso. Manter o movimento é necessário! Senão o sentido de tudo que conquistamos até agora, se perde.
Começamos a andar, agir e a cozinhar em manada, repetindo todos o mesmo mantra, o mesmo movimento e a mesma linguagem. Sem sequer pensar se acreditamos naquilo, sem analisar, sem saber mais o que estamos realmente fazendo.
Precisei de muita coragem para tomar essa decisão. Claro. Ela levou dois anos sendo maturada, pensada e amadurecida. Simplesmente é a palavra que eu mais gosto na vida. Então um dia descobri que, sim, simplesmente chegou a hora de encontrar um novo caminho que me leve àquela Senhora do abraço no Leblon… Eu preciso cozinhar para ela! É uma necessidade vital.
Concedi uma entrevista de duas horas e meia para um veículo que reduziu todo um pensamento, uma crença e uma declaração de amor a gastronomia a uma história em quadrinhos oca e sem conteúdo.
Onde o item mais importante de toda essa decisão absolutamente visceral, parecia ser tão somente o fato de eu estar abrindo mão de uma estrela Michelin…
Típico do mundo moderno, da modernidade líquida. Como diria Zygmund Bauman: “Viver entre uma multidão de valores, normas e estilos de vida em competição, sem uma garantia firme e confiável de estarmos certos é perigoso e cobra um alto preço psicológico.”
Bauman também nos deixou esse ano. Mas seguirá nos fazendo refletir e pensar para sempre. Esse foi o legado do RS na história da gastronomia brasileira: Fazer pensar sempre.
Por isso resolvi não fazer despedidas ou transformar tudo isso em algo além de uma decisão muito pessoal e visceral. O RS encerrou o seu ciclo com um jantar normal, como a vida é. E sem querer, justamente por causa disso, acabou se tornando imortal.
Vai seguir influenciando. Quanto a mim? Pretendo finalmente realizar o meu grande sonho: Me tornar uma cozinheira de forno e fogão que ainda vai encontrar aquela Senhora do abraço no Leblon e cozinhar para ela… Já estamos com algo no fogo… Cozinhando beemmmmm baixinho, como diz a Vó Iracema. Enquanto isso vou respirar.”

O futuro de Roberta Sudbrack

Roberta continuará à frente do Da Roberta e do SudTruck, além da gestão da sua loja popup, o Sud Dog na Vila Madalena em São Paulo.

A garagem Da Roberta com um cardápio mais simples, sem deixar de lado a experiência

A gastronomia brasileira perde mais pela falta que o restaurante Roberta Sudbrack vai fazer ao Rio de Janeiro do que pela estrela no guia Michelin. É interessante que o contato com as outras operações, com o consumidor na rua, tenham levado Roberta a pensar na mudança.

Nos negócios mais simples é mais fácil que o cozinheiro possa se afastar da operação e se concentrar na gestão. Ele pode ter uma atuação mais estratégica, mas também pode folgar mais e ter mais tranquilidade, sem arriscar a qualidade da operação.

Roberta promete para breve um novo restaurante, que dará continuidade às suas pesquisas de comida brasileira, o que nos leva a um potencial ganho para a gastronomia brasileira no futuro.

O tortellini de batata doce com pão queimado e taioba

As dificuldades da alta gastronomia em ampliar rentabilidade passam pela pressão dos formatos. Temos visto surgir novas casas onde se reduz o ritualismo, a formalidade e a pompa. Não sabemos dizer se este é o formato para manter as principais operações, mas entendemos que é hora de pensarmos nos modelos de negócios.

O certo é que Roberta Sudbrack continuará fazendo o que ama, e é esta paixão que guia o nosso mercado e mantem a maioria das nossas operações funcionando.

Boa sorte Roberta!

 

Por Redação

Fotos: Divulgação

 

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