“O consumidor consciente é quem vai fazer os sistemas sustentáveis de produção avançar no país” – assim acredita Araci Kamiyama, engenheira agrônoma, com mestrado em Gestão de Recursos Agroambientais, membro do Conselho Deliberativo da Associação de Agricultura Orgânica – AAO, e autora do livro ‘Agricultura Sustentável’ – Editora SMA/SP Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Em entrevista à Infood, Araci falou sobre as boas práticas agrícolas da agricultura orgânica, que causam um menor impacto ambiental, reforçou as vantagens dos canais mais curtos de comercialização, por causa dos preços mais acessíveis, e também destacou as dificuldades que existem na produção de orgânicos.

INFOOD – Quais as diferenças entre a agricultura convencional e a agricultura orgânica?

ARACI KAMIYAMA – A agricultura orgânica é a linha mais difundida da agroecologia. Sua base técnica está na manutenção da fertilidade do solo e da saúde das plantas por meio da adoção de boas práticas agrícolas, como a diversificação e rotação de culturas, adubação orgânica, manejo ecológico de pragas e doenças e a preservação ambiental.

 As principais diferenças entre sistema convencional e orgânico são:

 

Indicadores Convencional Orgânico
Manejo do Solo

 

 

 

 

Degradação ambiental por práticas inadequadas:

·     Monocultura

·     Uso intensivo de máquinas e implementos agrícolas

·     Baixa cobertura do solo

Preservação ambiental por uso de boas práticas agrícolas:

·       Maior diversidade de uso do solo

·       Uso racional de máquinas e implementos

Boa cobertura do solo

Pragas e Doenças Medidas de controle:

Uso intensivo de agrotóxicos

Favorecimento de novas espécies de pragas e doenças

Eliminação dos inimigos naturais das pragas pelo uso inadequado de agrotóxicos

Uso de medidas preventivas

Manejo ecológico de pragas e doenças

Quando necessário, utilização de produtos não contaminantes

Adubação Uso intensivo de adubos químicos

 

Uso de adubos orgânicos (composto, esterco, adubo verde)
Número de Espécies ou Variedades (plantas e animais) Plantas e animais selecionados para altos rendimentos Uso de variedades e espécies mais resistentes e adaptadas ao ambiente da produção
Sustentabilidade Alta dependência externa de insumos e de energia não renovável Busca a autosustentabilidade dos sistemas de produção
Riscos de Contaminação Contaminação de trabalhadores rurais e consumidores por usos indevidos de agrotóxicos

Contaminação ambiental

Produção de alimentos livres de contaminação por agrotóxicos

Preservação ambiental

Impacto sobre recursos hídricos Maior impacto Menor impacto
(do livro da Araci  “Agricultura Sustentável”:  http://www.ambiente.sp.gov.br/publicacoes/2011/10/06/agricultura-sustentavel/)

 

INFOOD – Quais as vantagens de se produzir alimentos orgânicos? E as desvantagens?

ARACI – Acredito que as vantagens, em resumo, são uma produção com uso de tecnologias limpas e sustentáveis, capaz de atender a demanda de alimentos com um menor impacto ambiental.

Não é uma desvantagem, mas sim uma desproporção: na agricultura orgânica, com menos apoios governamentais (assistência, pesquisa, ensino extensão) ainda há falta de conhecimentos entre produtores (sobre técnicas de produção, processamento e comercialização), consumidores (sobre os benefícios ambientais, sociais e para a saúde) e população em geral.

INFOOD – O que é preciso ser feito para que o orgânico chegue a um preço mais acessível ao consumidor final?

ARACI – Ao contrário da agricultura convencional, a orgânica internaliza todo o custo ambiental e social da produção ao preço final de seu produto. Ou seja, o produtor orgânico passa por um período de conversão em que adota diversas práticas de conservação de solo e água e adequação ambiental da propriedade. Além disso, deve cumprir com todos os quesitos sociais (registro e todas as condições de trabalho) e “certificar o seu produto” atestando o cumprimento de uma legislação específica da agricultura orgânica, bem como outras legislações pertinentes (ex: registro no MAPA para processados; SIM,SISP, SIF; ETC….). Com menos apoio de estruturas de assistência técnica e extensão rural, o agricultor orgânico, principalmente nos primeiros anos, tem seu custo de produção mais elevado.

O tipo e forma de canal de comercialização também influenciam no preço. Em canais mais curtos de comercialização, como as feiras e compras institucionais, os preços já são bem mais acessíveis quando comparados com supermercados.

Assim, para o preço mais acessível, temos que ter mais políticas públicas, com incentivo à produção e canais alternativos de comercialização, assistência ao agricultor familiar, pesquisa e informações ao consumidor.

INFOOD – Quais os maiores desafios que existem para se produzir alimentos orgânicos?

ARACI – A transição do sistema convencional para o orgânico deve acontecer de forma gradativa. É um período crítico, pois o agricultor tem que adotar diversas práticas, posturas e adequações que aumentam o seu custo de produção, mas ainda não tem a agregação de valor ao produto final.

O primeiro passo é a adoção de práticas conservacionistas ou de “Boas Práticas Agrícolas”, que visem melhorar a cobertura do solo, conter a erosão e promover a recuperação ou preservação ambiental. Na segunda fase, devem ser implantadas as práticas de manejo das culturas e deve ser feito um bom plano de adubação e correção do solo, que considere as necessidades das culturas e a recuperação da fertilidade natural. Nesta fase, deve ser programado o manejo ecológico de pragas e doenças, já iniciado na primeira fase, com as práticas conservacionistas. O produtor deve prever o uso de produtos naturais, que não contaminem os alimentos, o trabalhador e o meio ambiente. Na terceira fase, deve-se procurar a diversificação de atividades, introduzindo novas atividades de baixo impacto, como, por exemplo, a integração com fruticultura, hortaliças, sistemas agroflorestais, apicultura, produção de leite e ovos, dentre outros.

O agricultor que tem a intenção de comercializar seus produtos no mercado orgânico, em grande expansão no país, deve ainda buscar atestar a qualidade orgânica por meio do SISORG, o Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica – do MAPA.

 Portanto, a fase de conversão do convencional para o orgânico é complexa e envolve conhecimento de práticas, técnicas, legislação, que, muitas vezes não está acessível ao agricultor, principalmente o familiar.

Algumas das principais dificuldades técnicas relatadas por agricultores são:

  • O manejo ecológico de pragas, doenças e plantas daninhas (que chamamos de espontâneas) na agricultura orgânica;
  • Como e onde encontrar sementes orgânicas ou sem uso de agrotóxicos ou adubos químicos;
  • Alternativas de mercado (ainda é pequeno se comparado com o convencional).

 INFOOD – Quais as dificuldades para um produtor de orgânicos vender seus produtos para restaurantes?

ARACI – Desde que comecei a trabalhar com agricultura orgânica e espaços de comercialização, sempre questionei sobre o motivo dos restaurantes ofertarem poucas opções orgânicas.

Conversando com restaurantes, verifica-se que há dificuldades de compras de forma constante e regular com relação a quantidade de variedade de produtos consumidos. As entregas por parte dos agricultores são mais difíceis, uma vez que cada restaurante demanda uma quantidade pequena que compense o custo de logística para entregas semanais.

Enfim, uma organização em grupos/associações, tanto do produtor como dos restaurantes, pode ajudar a aproximar esses dois  elos da cadeia e minimizar problemas de logística e planejamento de produção para atendimento às demandas.

INFOOD – Há apoio do governo em relação aos orgânicos?

ARACI – Os incentivos ainda são poucos, mas já estão começando, como: algumas linhas de financiamento (PRONAF Agroecologia, FEAP-Agricultura Orgânica); algumas universidades abordando o tema na graduação ou pós-graduação; as compras públicas (PAA e PNAE) que pagam 30% a mais para o produto da agricultura familiar que for orgânico.

Atualmente em São Paulo há algumas iniciativas do Estado, como o Protocolo de Transição Agroecológica, com objetivos de estimular a produção orgânica. A prefeitura de São Paulo tem uma lei para comprar produtos orgânicos nas escolas municipais.

INFOOD – O que mais o governo poderia fazer para incentivar a produção de orgânicos?

ARACI – As compras públicas podem ser um grande incentivador e colaborador para um melhor acesso da população aos produtos orgânicos. Políticas que estimulam essas compras, bem como outros canais diretos de comercialização, são fundamentais.

Políticas para melhorar a assistência técnica e extensão rural ao agricultor familiar, bem como o fortalecimento das instituições de pesquisa e ensino em agricultura orgânica. O apoio na fase de transição é fundamental.

INFOOD – Por que os orgânicos – e também os malefícios dos agrotóxicos – não são tão difundidos?

ARACI – O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo! Para “ganhar” esse título precisa de muito esforço, apoio, articulação e estratégia. Há muitos interesses envolvidos e estratégias bem estabelecidas para sustentar o modelo de produção convencional. Por exemplo, você sabe que as empresas de agrotóxicos são isentas de vários impostos?

Por outro lado, a agricultura orgânica se contrapõe a esse modelo monocultor e utilizador de insumos químicos sintéticos. Propõe uma agricultura mais biodiversificada e com menor dependência de insumos externos, com práticas que revitalizam o solo, promovem o equilíbrio ambiental e evitam ou dispensam os adubos químicos e agrotóxicos.

INFOOD – Temas como sustentabilidade e respeito ao meio ambiente estão cada vez mais em voga. Como você vê isso?

ARACI – Vejo com “bons olhos”. Penso que, quanto mais a população for consciente e entender o que a produção agropecuária e os seus hábitos de consumo têm a ver com a degradação ambiental e a sustentabilidade como um todo, mais avançamos com a agricultura orgânica / agroecológica. Ou seja, o consumidor consciente é quem vai fazer os sistemas sustentáveis de produção avançarem no país.

INFOOD – É possível pensarmos num consumo 100% de orgânicos no futuro, ou isso é utopia? Se sim, em quanto tempo? Se não, qual a razão?

ARACI – Hoje já seria possível atender a demanda mundial de alimentos com o sistema orgânico. No entanto, como já dissemos, é um processo de transição que depende de decisão política.

É claro que não é da noite para o dia. Possível é, temos experiências práticas que comprovam que um sistema equilibrado e solo fértil são capazes de sustentar as melhores produções e são mais resilientes às mudanças climáticas. Mas…

 INFOOD – Você só consome orgânicos?

ARACI – Não, pois trabalho distante de casa e tenho que almoçar em restaurantes próximos. Mas em casa consigo ter uma boa parte de produtos orgânicos e comprados direto do agricultor familiar.

Os principais produtos orgânicos que consigo consumir são: legumes, verduras , frutas, açúcar, azeite, farinha de trigo, fubá (do sul), ovos, arroz (somos o maior produtor de arroz orgânico da América Latina), mel, iogurte . É claro que tenho algumas facilidades por fazer parte da Associação de agricultura Orgânica – AAO e conseguir acesso direto a produtores.

 

 

Associação de Agricultura Orgânica

http://aao.org.br/aao/

 

Por Redação

Fotos: Divulgação

 

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