“A gente tem que sentar numa mesa. De um lado, o restaurante. Do outro, o produtor. Temos que ter gente disposta a conversar”. Com essa frase, Márcio Stanziani explica a importância e o papel que os alimentos orgânicos estão assumindo na atualidade. Stanziani, que é secretário executivo da Associação de Agricultura Orgânica (AAO), acredita que a verdadeira revolução orgânica só vai acontecer quando o consumidor rejeitar o produto convencional: “quando ele (consumidor) falar ‘não quero comer o convencional’, vai assustar todo mundo. E todos vão ter que se adaptar. Acho que cada vez mais isso está acontecendo”.

Segundo o secretário executivo, é papel do chef esclarecer a importância do alimento orgânico para o cliente: “Sei que a gastronomia tem uma crise muito grande com a agricultura orgânica. Primeiro, devido aos produtos fora de época. A gente trabalha com uma gastronomia adequada à natureza, sazonal. O chef de cozinha que queira trabalhar com o orgânico enfrenta o desafio, porque vai enfrentar o desejo do consumidor dele”, afirma Stanziani.

Na sede da AAO, a INFOOD conversou com Márcio, que esclareceu diversos mitos a respeito do tema e apontou algumas falácias: “precisamos acabar com isso de que a agricultura orgânica não alimentaria o mundo. Claro que alimentaria, chega até a ser mais produtiva do que a convencional.”

Confira, na íntegra, a entrevista:

 

INFOOD – Como surgiu a Associação de Agricultura Orgânica (AAO) ?

MÁRCIO STANZIANI – Tudo começou em torno de 1977. À época, um grupo de agrônomos – que não concordavam com a maneira com que os alimentos eram produzidos – começou a questionar esse modelo e disse que havia uma outra maneira de se produzir, que era a maneira orgânica. Um pequeno grupo começou, portanto, dentro da associação de agrônomos. Doze anos depois, esse coletivo criou a Associação de Agricultura Orgânica (AAO). A AAO veio naquele momento para aglutinar a ideia de vários pequenos grupos ao redor do país em um pensamento só e ter mais força política. 

Em 1991, abrimos a Feira do Produto Orgânico da AAO, para mostrar tudo aquilo que se falava. Isso foi evoluindo com o tempo e trabalhamos fortemente na questão das políticas públicas – a mais recente, por exemplo, foi a introdução do alimento orgânico nas escolas municipais. A gente mantém a feira, um espaço gastronômico, para mostrar as possibilidades ligadas a nossa área. Essa venda direta é uma das melhores maneiras de venda, porque você elimina o intermediário. 

 

INFOOD – Qual o principal objetivo da Associação de Agricultura Orgânica (AAO) ?

MÁRCIO – Difundir o alimento orgânico. Atualmente, estamos em um momento em que temos que democratizar o acesso ao produto. Isso tem que deixar de ser uma coisa de elite, para que outras classes possam consumir também. Para isso acontecer, entra o papel do governo, de viabilizar essa democratização. A AAO trabalha nesse pilar, da democratização ao acesso, incentivo à produção orgânica no campo, conversão da agricultura convencional à orgânica e a questão das compras públicas – que têm um papel bem importante.

 

INFOOD – No dia a dia, no varejo, os produtos orgânicos são mais caros que os não orgânicos. Como convencer o consumidor a gastar um pouco mais ?

MÁRCIO – Primeiro, não dá para comparar um com o outro. Eles não são o mesmo produto! A base de comparação inexiste. Temos alguns paradigamas a serem quebrados. Hoje você tem alguns produtos que, em safra, chegam a ser até mais baratos do que o convencional. A verdadeira revolução do consumo orgânico vai vir do consumidor. Talvez, na hora em que o orgânico for subsidiado – da mesma forma com que o agronegócio é subsidiado –  a gente possa pensar em fazer a comparação. 

DSC_0461“A verdadeira revolução dos alimentos orgânicos vai vir do consumidor”

INFOOD – Quais as vantagens de se produzir alimentos orgânicos ?

MÁRCIO – Na produção de alimentos orgânicos há menos mecanização. Isso fixa o homem no campo. É algo artesanal, fazendo com que você tenha recursos humanos para fazer isso. Além de você não mexer com agroquímicos.

 

INFOOD – Como é transformar uma fazenda de produtos comuns para uma fazenda de produtos orgânicos ?

MÁRCIO – É bastante complexa, demora de 3 a 5 anos. Esse é o verdadeiro drama. É uma fase de transição, representando um processo difícil para o produtor. Mas cada vez mais tem gente fazendo essa transformação. E o consumidor não tem a menor noção disso, de quanto tempo demora para uma fazenda virar orgânica.

 

INFOOD – Qual o desafio a ser vencido para o produtor de orgânicos fornecer diretamente para os restaurantes ?

MÁRCIO – São vários os desafios: 1) Entrega ponto a ponto – É um problema terrível, que o restaurante quer e o produtor não consegue fazer. Quem vai resolver o nó é o intermediário. Alguns vêm buscar aqui na feira, mas muitos não querem. 2) Preço – Isso tem que ser negociado com o produtor e com o restaurante. Eu já tentei fazer essa conexão produtor-restaurante, e é muito difícil, parece água e óleo. O dono de restaurante não entende e o produtor não quer entender. É um desafio que a gente tem que enfrentar.

DSC_0432“A gastronomia tem uma crise muito grande com a agricultura orgânica”

INFOOD – Há apoio/incentivo do governo para a produção de produtos orgânicos ?

MÁRCIO – Sim, mas não é significativo. Há uma luta muito grande para ter.

 

INFOOD – O McDonald’s decidiu que não vai mais comprar frangos tratados com antibióticos. A decisão afeta toda a escala de produção, pois eles são os maiores compradores individuais de frango nos EUA. Levará um tempo para que produtores consigam se adequar. Há esse risco no Brasil ? Se os restaurantes daqui adotarem somente produtos orgânicos, você acha que há risco de não ter produção suficiente ?

MÁRCIO – Tudo iso é um processo. Por que será que o Mc Donald’s está fazendo isso? Porque ele é bonzinho?! Porque é mais barato?! É porque o consumidor está pedindo. Se ele colocar frango com antibiótico, o cara vai parar de comer Mc Donald’s. É o consumidor falando. 

Nós já temos uma rede de fast food, de shopping, que vai transformar tudo em orgânico. Ele vai fazer a transformação loja por loja e daqui a uns 3, 4 anos, toda a rede estará reformulada. Ele vai sair na frente, provavelmente – ganhando muitos clientes. 

 

INFOOD – Como você, que era um jornalista, pegou gosto pelo alimento orgânico ?

MÁRCIO – Isso vem de 1983. Ah, essa coisa da natureza. Naquela época eu não tinha tudo isso na cabeça, claro. Mas não sei o quê exatamente me fascinou. Gosto do lado rural. E, quando fui para esse lado, já fui direto para o orgânico. Logo em seguida virei produtor orgânico, no mesmo ano. Hoje, apesar de trabalhar na zona urbana, moro na zona rural. Tenho uma identificação: tem gente que ama o lado urbano, acha a avenida Paulista a coisa mais linda do mundo. Mas não é o meu caso. A desconexão do ser humano com a natureza, para mim, é o motivo desse mundo que a gente vive hoje. 

 

 

Por Vinícius Andrade
Fotos: Vitor Rocha

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