Desde 2008, o pernambucano Rolando Vanucci, mais conhecido como Rolando Massinha, atua no mercado de food truck, ou como ele prefere, no mercado de comida sobre rodas, tendo como especialidade massas frescas a preços camaradas. “Eu trabalho com um produto mais simples, acessível com preço justo para a rua” afirma Rolando.

Ele foi um dos precursores do movimento da comida de rua. Não é correto falar em food truck, pois Rolando está neste mercado antes deste termo ter se transformado num segmento. Em entrevista à INFOOD, Rolando Massinha fala sobre as dificuldades enfrentadas nas ruas, e explica sua preferência para que haja demarcação de lugares fixos  de atuação dos food trucks. “Rodando, você não cria clientela, não gera fidelização. Ninguém vai atravessar São Paulo para ir atrás de você. Eu não acho bom que exista mobilidade nos pontos”, acrescenta o empreendedor.

 

INFOOD – Como você entrou nesse mercado ? 

Rolando Vanucci – Não teve desejo nenhum de atuar na rua. Eu era empreiteiro de obras, e tive um grande problema em um projeto, que me fez perder o chão. Foi então que passei em frente de uma Kombi de hot dog, fiquei vendo a operação e gostei de ver a Kombi toda limpa, bem preparada. A moça me perguntou se eu queria um hot dog, e eu disse que queria saber se ela conhecia alguém que tinha Kombi igual para me vender. Por acaso ela sabia de uma pessoa. Eles ligaram para a pessoa, e acabamos indo ao banco e ao cartório para eu comprar a Kombi. Foi uma compra no escuro, sem ver como ela estava.

Levei a Kombi até minha casa e me perguntei: e agora? Eu só sabia que precisava fazer algo diferente, e tive a ideia de não fazer hot dog, mas de servir massa. Contei para minha esposa que tinha comprado a Kombi, ela pensou que era para fazer carreto, mas quando contei que seria uma Kombi de comida, ela achou que eu enlouquecera. Durante 12 a 13 dias eu readaptei  a Kombi, com um fogão industrial, comprei panelas, coloquei azulejos no veículo, um forro de PVC e um pia de mármore, fui atrás de um fornecedor para me vender as massinhas, fiz os testes, e mais ou menos num prazo de 20 a 30 dias eu estava na rua, com a cara e coragem.

INFOOD – De onde vem sua experiência na gastronomia?

Rolando  – Eu nunca atuei com isto. Eu só fazia um molho à bolonhesa, seguindo a receita de uma massa pronta. Minha mãe cozinha bem, fazia algo gostoso, mas ninguém na família atuava profissionalmente na cozinha. Foi assim que descobri ser autodidata.

INFOOD – Como surgiu a marca Rolando Massinha?

Rolando – Eu pensei primeiro no nome Rolando Spaghetti. Passadas algumas semanas, e dois caras vieram até minha Kombi uma noite. Eles estavam bêbados e me disseram: “vê um bagulho deste”, e eu respondi: “bagulho tem logo ali na frente”. Então me perguntaram o que eu vendia, e apesar de querer quebrar os caras, eu respondi que vendia “pasta”. Foi quando eles perguntaram se eu tinha um fettucine. Servi e eles gostaram e ligaram para outra pessoa dizendo que estavam comendo uma massinha na Sumaré.

Voltaram outro dia, agora não mais bêbados, passaram de carro devagarinho e cantaram uma frase: “masssinha viado”. Eu estava com alguns clientes e não sabia onde enfiar minha cara. Eles pararam o carro, desceram e vieram a pé cantando “massinha viado”. Pediram mais um, e começaram a vir regularmente. E sempre cantando “massinha viado”. E foi assim que começou a surgir o nome Massinha. No sexto mês, eu percebi que ninguém me chamava nem do Rolando, nem de Spaguetti, mas estavam me chamando de Massinha. Tirei o Spaguetti e assim surgiu Rolando Massinha, com a ajuda desses dois loucos.

INFOOD – Naquela época, como vocês eram chamados? Não se falava food truck…

Rolando – Imagina, nem as pessoas que vinham de fora falavam food truck. Eles falavam comida de rua. Eu odeio a fala “food truck”. O brasileiro é muito americanizado. Eu prefiro comida sobre rodas, algo mais chão, mais Brasil. A palavra food truck deu uma glamourizada, está na moda. Não sou contra a moda, eu não gosto é da glamourização. Eu sou patrocinado pela lifan, eles chamam de um ninifosion, é um mini food truck. Eu aceito o nome, mas preferia comida sobre rodas.

rolando_massinha_comida_sobre_rodasRolando: “O brasileiro é muito americanizado. Eu prefiro comida sobre rodas”

INFOOD – Quais as dificuldades de se trabalhar na rua ?

Rolando – A chuva; para quantas pessoas eu vou vender. Tem food truck que não sai em dia de chuva. Um food truck de 300 mil não pode pegar chuva. Para atuar na rua, você precisa estar preparado para as intempéries. Na rua é muito mais complicado do que num estabelecimento.

O atendimento também é muito importante. O consumidor precisa pagar e receber o produto num prazo rápido. Por isso a necessidade do pré-preparo, ajudando a reduzir a montagem final do produto. Se o produto demorar, acaba gerando fila, e não conseguimos atender todas as pessoas.

INFOOD – Você atuava à noite ?

Rolando – Sim. A noite, aparentemente, é mais ingrata, mas foi a noite que me fez, pois eu alimentava pessoas que precisavam de uma comida às 2, às 3 horas da manhã. E em São Paulo, há oito anos, só tinha pernil do Estadão, os hot dogs da noite e o Rolando Massinha. Eu não tinha documentação, alvará, TPU, e trabalhava à noite por necessidade.

INFOOD – Você sofreu depois com a TPU ?

Rolando – Faz oito meses que eu fui tirado da Avenida Sumaré. Alguns dizem que foi por conta de uma entrevista, mas hoje um grande empresário do ramo do fast food falou a mesma coisa que eu, mas a diferença é que ele tem o poder. Não foi uma decisão do prefeito Fernando Hadad, pois ele me colocou como referência da lei que ele estava assinando. Isto me fez perder 8 meses, mas agora estou retomando.

Estou aguardando a TPU de uma região, pois você só pode ter um food truck em uma região com seu CNPJ. E vou abrir outras, dentro da lei, convidando uma pessoa para atuar comigo com meu caminhão em sociedade. Durante 8 meses eu fiquei aguardando a liberação da Avenida Sumaré, pois foi onde eu sempre atuei. Faz um ano que não atuo mais com as kombis, agora eu uso um produto da Lifan.

INFOOD – Você concorda com o preço da comida de rua, do preço de alguns food trucks?

Rolando – O país passa por uma grande crise. Algo que eu já previa, por isso eu lancei a comida a R$ 10. Um preço correto e justo. O problema é que o brasileiro quer ganhar ontem, se ele investe 300 mil reais num food truck, ele precisa vender caro para pagar as despesas.

O importante é tomar cuidado com os custos. No meu projeto, eu escolhi um caminhão que zerinho custa 75 mil reais. Eu não busquei algo suntuoso, mas eu queria 10 pequenos carros fazendo dez pontos de venda. Eles colocam cinco pessoas para trabalhar. Eu trabalho com duas ou três pessoas, pois eu tenho a experiência de já ter atuado há muito tempo. Hoje existem alguns enganos e isto acaba comprometendo o resultado.

Você tem que vender um produto legal, não monstruoso, algo menor. Um produto com menos informação, que possa ser comido com a mão, em pé, sem nenhuma estrutura. Diminua seu sanduíche, seja equilibrado e dê a oportunidade das pessoas comerem dois ou três sanduíches. Eu entendo que tem que ser mais enxuto, um hambúrguer tem que sentir a carne, um pão legal e a maionese. Eu trabalho com um produto mais simples, acessível com preço justo para a rua.

INFOOD – Você trabalharia num foodpark?

Rolando – Eu aceitaria se ele cobrasse um preço justo, permitindo que eu pudesse operar com um preço próximo da realidade do consumidor. Foodpark eu acho legal no fim de semana, quando as famílias buscam um passeio diferente. Eu, minha esposa e minha filha, se formos a um foodpark, vamos gastar R$ 200. Se eu for ao Mocotó do Rodrigo Oliveira, eu vou gastar R$ 150.

INFOOD – Você comprou uma empresa que fabricava massas ?

Rolando – Eu comprei uma empresa que tinha uma fábrica de massas. Eu tive a vantagem de trabalhar a minha massa, do meu jeito. Quando comecei, eu pedia um ravióli quatro queijos e quando experimentava, eu acaba sentindo apenas o sabor de dois queijos. Com minha fábrica de massa, passei a controlar a produção do produto que eu serviria, garantindo que eu venda algo com confiança. A fábrica só trabalha para minha demanda.

rolando massinha III (15 de 22)Rolando: “É importante que se fixe o ponto”

INFOOD – O que está por trás da operação ?

Rolando – Eu uso muito a palavra logística. A vida requer logística. Você precisa dormir, acordar e passar o dia para depois dormir novamente no outro dia. Você precisa estar pronto para um caminhão que quebra, um pneu furado. Eu convidava quem queria entrar no ramo para trabalhar por 3 dias comigo, pois depois de um tempo, é comum que algumas pessoas desistam.

Os novos empresários do ramo não estão percebendo, mas eles não estão pagando as contas. Eu fiquei dois anos trabalhando sozinho, cochilando 2 ou 3 horas por dia. Eu não tinha onde estocar, então eu tinha que comprar todo o dia. Olha a importância da logística. A minha cozinha, na minha casa, não dava conta para lavar as panelas grandes que eu usava. O sofrimento foi grande, a operação no início é muito difícil.

A imprensa levantou meu negócio, pois foi assim que eu fui crescendo, com as matérias que falavam do empresário que estava vendendo massa numa Kombi.

INFOOD – Como está o mercado brasileiro ?

Rolando – O Rio de Janeiro está crescendo, tem vagas demarcadas. São Paulo tinha tudo para ser referência no mercado, mas só Pinheiros, e agora Aricanduva, estão operando. Os outros bairros não regulamentaram. O food truck não pode criar um problema, ele na verdade veio para suprir uma demanda, oferecendo mais opções de alimentações. De 2008 para cá, temos 4 milhões de food trucks nos Estados Unidos. A lei não é tão ampla, em Nova York é limitado, você tem apenas 2 horas para operar. As leis mudam de estado para estado, onde existem mais condições e menores condições. Não dá para comparar os dois mercados.

INFOOD – Você concorda com mobilidade das vagas ?

Rolando – A gente posta que vai estar lá, e as pessoas vão seguir. Não funciona. Rodando, você não cria clientela, não gera fidelização. Ninguém vai atravessar São Paulo para ir atrás de você. Eu não acho bom que exista mobilidade nos pontos. É importante que se fixe o ponto. Não creio que passando uma agenda seja possível conseguir atrair o cliente.

INFOOD – Como você vê o futuro deste mercado?

Rolando – Eu entendo que será maravilhoso. Estão chegando cada vez mais carros. Acredito que até o fim do ano devemos chegar em 300 a 350 food trucks em São Paulo. O food truck é caro, demora para ser produzido. Mas entendo que daqui um ano, muita gente vai desistir do mercado, pois veio na moda e não via suportar a operação. Este é o negócio originalmente familiar, uma operação familiar. As pessoas precisam alongar o tempo de retorno do investimento, garantindo um preço adequada para a comida de rua.

rolando massinha_comida_sobre_rodas_2Rolando:  “Eu queria 10 pequenos carros fazendo dez pontos de venda”


Por Redação
Fotos: Taís Pinheiro

 

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