Em meio a todo o conflito que atinge a Espanha e a tentativa de a Catalunha se tornar independente, cabe a nós, nesse espaço, fazer a seguinte pergunta: o que caracterizaria os vinhos da Catalunha, o “novo país” se a ideia da secessão fosse concretizada? Minhas respostas a tais provocações sempre se baseiam nas experiências que tive. E aqui são várias aventuras.

O país teria como principal característica a produção em série – largos volumes – de espumantes que costumeiramente são chamados de Cavas. As casas mais conhecidas são altamente expostas em lojas de aeroportos da Espanha e das Américas, bem como facilmente encontradas pelo Brasil. São as famosas Freixenet e Codorníu, cujos vinhos básicos produzidos principalmente a partir do trio de uvas que caracteriza esses espumantes – Parrelada, Xare-lo e Macabeo (Viura) – entregam bebidas refrescantes e ideais para um bom brinde, mas que, sinceramente, nunca me arrancaram suspiros e encantamentos.

Ambas as produtoras, no entanto, possuem vinhos mais bem elaborados, mas mesmo uma Codorníu que ganhei de presente numa lata passou longe de me encantar. Essa casa, por sinal, produz vinho na Argentina e seus tintos também me pareceram bem comuns. Em matéria de espumante, o Brasil tem coisa, em média, muito melhor.

Complementarmente, algumas outras cavas que bebemos foram a simples e frágil Don Román, facilmente encontrada a preços bem acessíveis no Brasil. Um degrau acima, nós conhecemos a Castellblanc e, bem melhor que ambas, a Bohigas Reserva. Todas serviram de forma muito simpática para um bom brinde.

Bem acima da média, para o nosso gosto, está a Juvé & Camps, cujo Reserva de la Família encantou por sua secura e aromas muito agradáveis de abacaxi. O espumante rosado da casa também é ideal para uma boa comemoração, o que fizemos no Réveillon de 2015 em Portugal numa noite de vinhos muito especiais.

No mais, se tomarmos por base as proximidades de Barcelona e uma seleção de vinhos baratos que bebemos da Catalunha, os tintos são frágeis para o nosso gosto, bem como os brancos. A região de Penedès passou a ser sinônimo de baixa qualidade para nós, entregando algo razoável a partir de preços que sugerem escolher outros terroirs de resultados mais seguros.

Mas é impossível falar mal dos tintos catalães se a pesquisa pelo “país” for feita com um mínimo de atenção. Isso porque estão localizadas na Catalunha duas das regiões mais impressionantes em matéria de vinhos. É das montanhas que nos são servidos os Montsant e, principalmente, os Priorat. As histórias aqui são diversas, sobretudo porque estivemos no local por duas vezes – em 2012 e 2013. Terra seca, de um calor insano no verão que conhecemos, e de um frio aparentemente nervoso num inverno que não tivemos o prazer de enfrentar, as regiões se tornaram queridinhas do universo dos vinhos. Não tenham dúvidas que muitos textos tratarão de contar o que vimos por lá, tendo como ponto máximo as visitas às produções de ícones como René Barbier e Álvaro Palacios, e à revelação Fredi Torres.

O universo catalão é tão especial aqui que, dada sua localização mediterrânea, até mesmo as uvas se deslocam da consagrada Tempranillo, da Espanha, para a simpática e polivalente Garnacha, acompanhada muitas vezes da Carinhena. É com base no que existe nessas duas regiões que, certamente, se a Catalunha se tornasse independente, o país estaria absolutamente inscrito no universo dos grandes vinhos – pela quantidade de suas cavas e, sobretudo, pela qualidade dos tintos produzidos em Montsant e Priorat.

Texto: Humberto Dantas
Humberto Dantas, doutor em ciência política, analista político, professor universitário e apaixonado pelo universo dos vinhos – muito mais amor do que técnica, sabedoria e conhecimento.

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