Hoje formei mais uma turma. Para quem não me conhece, me chamo Gustavo Guterman. Sou professor de gastronomia há uns 6 anos. Cozinheiro Profissional há uns 11.  Já vi quase tudo nessa vida dentro de uma cozinha profissional. Mas dar aula foi a experiência mais desafiadora de todas.

Ainda consigo me lembrar do meu primeiro dia. Estava nervoso. Já havia chefiado brigada de cozinha. Mas ensinar… Não, era a primeira vez.

Aula? Habilidades Básicas em Cozinha Profissional. Matéria? Estrutura de Cozinha Profissional e Mercado de Trabalho. Entro em sala. 30 pares de olhos fixos. Meninas, meninos, homens e mulheres. Uma turma extremamente heterogênea.

Fiz a chamada e comecei. Nas duas frases iniciais gaguejei. Eu tremia. Pedi desculpa. Respirei fundo e disse para mim mesmo. “Você fez isso a vida toda. Agora você vai ensinar isso”. Respirei novamente, abri um sorriso e comecei.

Contei sobre a minha vida. Para falar sobre cozinha, eu precisava falar sobre mim. E foi isso que eu fiz. Naquele dia descobri duas coisas. Uma, era que eu conseguia dar aula. E mais do que isso, eu gostava de dar aula. A outra, era que minha vida tinha mais lembranças sobre a cozinha do que sobre qualquer outro aspecto. E eu estava apaixonado por estas constatações.

Os primeiros anos de magistério passaram, e eu havia chegado a uma conclusão estranha. Estava aprendendo mais do que ensinando. Achava essa frase algo clichê demais para falar alto, só que realmente havia acontecido. E para provar, contarei duas histórias para vocês hoje.

História um

Correção da primeira prova. Era teórica. O tema era sobre métodos de cocção. Uma disciplina que mescla um pouco da química, da física e da biologia. Claro que tudo voltado para a cozinha. Foram meses de aulas, onde eu conseguia sair da teoria e, algumas vezes, fazer um experimento para provar minhas teorias. E os alunos adoravam.

Fizeram a prova. A grande maioria me entregou feliz aquelas folhas. Com um olhar que era um misto de dever cumprido e ansiedade. Contudo, na hora da correção, apesar da esmagadora maioria ter ido acima da minha expectativa, me deparei com uma avaliação em branco e com uma assinatura ilegível. Gelei. A primeira sensação que tive foi de medo. Juro. Nunca havia aplicado um exame antes. E nunca havia sido tão severamente negligenciado quanto aquela prova com lacunas vazias.

Descobri naquelas avaliações em branco o poder de um professor e dois caminhos muito claros se estabeleceram. Colocar ao lado do nome dele a nota 0 e seguir adiante. Para mim seria somente um número. ZERO. Minha vida não alteraria de forma alguma seu curso. Mas, e para aquele nome quase ilegível? Quais foram os caminhos trilhados até ali? Quantos foram os dias sem dormir para conseguir entrar naquela sala de aula? Quem ele deixou em casa com saudade ou com quem sabe, restrições, por conta da sua ausência. Quantas renúncias foram feitas? Esse ZERO seria mais um não? O último, que talvez o fizesse desistir de toda uma vida profissional? E que professor seria eu se o condenasse a essa prisão?

No dia seguinte entreguei as provas, liberei a turma. Pedi para aquele senhor esperar. Senhor, porque ele era mais velho do que eu, porém, não deveria ter 60 anos. Pesaroso, ele sentou na carteira em frente a minha mesa, esperou todos saírem e em silêncio me olhou. Sem permitir que o meu nervosismo atrapalhasse qualquer coisa, adiantei a minha própria apreensão, e o indaguei: “- Qual é o seu maior sonho?”

Ele estava nitidamente desconsertado. Possivelmente não esperava essa pergunta. Com um sorriso quase infantil respondeu: “Quero ser cozinheiro.”

Sem permitir que o nervosismo tomasse conta, quebrei o vazio do silêncio e novamente fiz aquela que seria a última pergunta da noite: “-Posso te ajudar neste sonho?”

E, com os olhos marejados, ele respondeu: “-Por favor”.

Anos se passaram desde aquele momento. Já me sentia mais experiente. Achava que nada mais poderia abater esse “velho” cozinheiro de 30 e poucos anos.

 História dois

Era uma turma que já estava no final do curso. Estávamos em uma aula de criação com ingredientes da cozinha brasileira.

Alunas e alunos mais espertos, didaticamente e no traquejo do dia-dia. Alguns inclusive já inseridos no mercado de trabalho. Todos se conheciam, fazendo com que o clima do laboratório fosse leve.

Faltando alguns minutos para o final da aula, após a degustação dos pratos, no momento em que a cozinha começa a ser higienizada, percebo uma das minhas alunas saindo devagarinho do laboratório. Faço-me de distraído e, com o canto do olho, percebo-a voltando para a sala de aula com uma sacola plástica, dessas de mercado. Dentro dela, nitidamente potes, vários potes. Sem deixar que a situação seja interrompida, me afasto. Abro a geladeira e observo pelo reflexo da porta algo que não podia acreditar. Todos os alunos estavam indo, um a um, vagarosamente até ela (para que eu não percebesse) e enchiam os potes vazios com o excesso da produção das suas bancadas. Cada grupo contribuía com um pouquinho.

Sem saber como reagir, deixei a situação acontecer. Quando a cozinha estava limpa e os estudantes já estavam se dirigindo para o vestiário (para minha surpresa, apesar da menina continuar na cozinha, o saco de potes já havia sumido novamente), chamei a aluna para conversar.

Dispensei a turma, sentei com ela às mesas que fazíamos a degustação e, com toda delicadeza, sem saber como proceder, perguntei o que estava acontecendo. Ela tremia, a voz tremia, eu tremia…

“- Chefe, você deve estar perguntando sobre os potes né? Me perdoa. É que… é que…”

Respirei fundo, bebi um gole d ´água (a turma havia esquecido um jarro de água na mesa), servi um copo para ela. Pedi que respirasse e bebesse um gole. Ela me ouviu, bebeu e continuou:

“- É que meu pai e minha mãe estão desempregados. Eu só continuei no curso porque ele é de graça e porque o senhor me emprestou sua faca e seu uniforme. Mas agora ficou mais difícil. No início eu levava para mostrar para eles o que eu tinha feito, mas depois percebi que aquilo tinha se tornado nosso jantar. Estão faltando algumas coisas, sabe, e aí eu levo e ajudo.”

Não consegui conter o vazamento dos olhos. Eu não consegui sequer falar. Dei um abraço forte nela. A partir da semana seguinte, sai para beber uma água enquanto eles terminavam de limpar o laboratório. Bebia uma água e voltava. Acabou por se tornar um hábito. Depois daquele dia eu nunca mais vi nenhum potinho. E comecei a ingerir uma quantidade bem maior de água. Os médicos dizem que devemos ingerir pelo menos 2 litros por dia…

Orgulho

Sou um cozinheiro com um orgulho enorme. Mas cada dia que formo uma turma, esse orgulho divide-se com a honra de ter me tornado um professor.
Estamos formando seres humanos com a habilidade de cozinhar. Com a capacidade de dar comida para o outro. Não há nada mais bonito nesta vida do que ensinar e cozinhar.

Ah, sim, esses dois alunos se formaram. Levaram família, amigos, cachorro e papagaio. E todos eles tiraram fotos e me abraçaram muito. Foram dois dos abraços mais gostosos da minha vida. Hoje ela é sub chef de um restaurante conhecido em Cabo Frio. Ele está cursando Faculdade de Gastronomia. Me escreveu há uns meses, perguntando-me os caminhos da educação em Gastronomia. Além de cozinheiro, quer ser professor!

 

Por Gustavo Guterman

*Gustavo Guterman é Pós Graduado em Gestão em Segurança dos Alimentos pelo SENAC SP, Graduado em Gastronomia no centro de formação internacional Alain Ducasse Formation, Técnico em Cozinha pelo SENAC RJ. Experiência no mercado profissional, em cozinhas nacionais e internacionais, atuando como cozinheiro e chefe de cozinha em renomados estabelecimentos do segmento de alimentação e bebidas. Atualmente atua como coordenador de Gastronomia do Instituto Federal Fluminense. Professor nos cursos de Gastronomia e Hotelaria na citada instituição, exercendo consultorias e palestras na área. É também autor do blog (e página) Guterman Gastronomia, que tem por objetivo a divulgação de ideias, artigos e noticias sobre o mundo da gastronomia.
https://gutermangastronomia.wordpress.com
https://www.facebook.com/pg/gutermangastronomia/

 

Uma ideia sobre “Um professor na cozinha. Um cozinheiro em sala.”

  1. Áurea Marques disse:

    Foi uma honra ser sua aluna! Parabéns pelo seu dia, Professor!

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