Teve grande impacto e repercussão mundial a morte do chef franco-suíço Benoît Violier no final de janeiro. A comunidade culinária mundial ficou chocada com o fato, e a INFOOD, em entrevista exclusiva, ouviu o chef italiano Gianfranco Chiarini sobre a trágica notícia do suicído. Nesta última década, dez chefs de cozinha cometeram o suicídio, uma triste estatística que deve chamar a atenção do mercado para este grave problema em nosso setor.

Gianfranco Chiarini, que é CEO/Executive Chef da Chiarini Culinary Consultants, trabalhando com restaurantes em diversos países, estudou no Instituto de Alta Gastronomia de Caracas, no Pittsburgh Culinary Institute e na Le Cordon Bleu Paris, além de passar pela cozinha de restaurantes estrelados pelo Guia Michelin, não era tão próximo de Benoit, mas eles se encontravam em eventos na Europa e conversavam nessas ocasiões.

O chef de cozinha francês Benoît Violier, do restaurante suíço l’Hôtel de Ville, foi encontrado morto em sua casa no fim do último mês de janeiro. Violier possuía três estrelas do tradicional Guia Michelin e já havia obtido inúmeros prêmios gastronômicos. De acordo com um comunicado divulgado pelas autoridades locais, o chef “teria posto fim a seus dias”. A morte de Violier aconteceu três semanas após seu premiado restaurante obter o título de “melhor restaurante do mundo” pelo ranking “La Liste”.

chef benoite violier_3_etoilesO chef Benoît Violier na capa da revista 3 Etoiles em outubro de 2013

Confira a entrevista, em que Gianfranco diz que a pressão que existe sobre um chef de cozinha será reduzida quando “chefs de todo o mundo pararem de se subjugar e de se escravizar em busca da perfeição exigida por alguns guias e listas de ranking de nível mundial”.

 

INFOOD – Você poderia falar um pouco sobre o Chef Benoît Violier?

GIANFRANCO CHIARINI – Eu não conhecia muito bem o Chef Benoît Violier, mas, nós nos encontramos em alguns eventos diferentes aqui na Europa e conversamos algumas vezes. Parecia que ele estava bem, e bastava conversar com ele por um minuto para perceber que ele era um profissional inquieto, sempre à procura de trabalhos extraordinários com desempenho superior e sempre exigindo o melhor de si. Era um profissional muito talentoso que fará falta na nossa profissão. Que sua alma descanse em paz.

INFOOD – Depois de 3 estrelas Michelin e de ganhar o prêmio de melhor restaurante do mundo, a notícia ainda fica mais chocante. Não sabemos se o suicídio foi confirmado, mas o que leva alguém no auge da carreira a tomar uma decisão destas?

CHIARINI – O suicídio está confirmado. Ele tirou sua própria vida com um tiro em sua casa em Crissier, Suíça, em 31 de janeiro de 2016, com apenas 44 anos. Há comentários que ele estava sofrendo de depressão ou algo parecido, mas isto não é algo que eu posso dizer com precisão, pois não mantínhamos um convívio pessoal tão próximo. 

chef benoite violier_grand_prixBenoît Violier recebendo o prêmio Art of Cooking Restaurant 2015

INFOOD – Existe muita pressão nesta área. Será que conseguimos reduzir isto no futuro? As novas gerações vão conseguir dar um outro ritmo, ou vamos nos acostumar com incidentes como este?

CHIARINI – Eu não acho que a pressão será reduzida, a menos que chefs de todo o mundo parem de se subjugar e de se escravizar em busca da perfeição exigida por alguns guias e listas de ranking de nível mundial.

A perfeição não deve ser alcançada nunca, pois será impossível fazê-lo. Nós somos seres humanos e temos valor artístico. Nossa gastronomia é uma expressão artística. Devemos aproveitar nosso trabalho e nos divertir para não sentir a pressão de uma sociedade que exige o impossível. Vivemos em uma sociedade que exige maçãs perfeitas no supermercado e vida perfeita em torno de nós. Mas isso é uma máscara, uma casca e não é natural.

Eu espero que meus chefs se expressem de acordo com seu estilo e maneira de cozinhar, com ingredientes de época e com a originalidade e pureza de seu produto, mas eu não quero um desempenho perfeito. Chefs são seres humanos e eu preciso ver que a imperfeição e a diversão estão presentes em todas as suas apresentações e criações.

As novas gerações devem começar a entender que a busca da glória, da fama, de estrelas Michelin e das avaliações não podem ser o objetivo profissional. Eles precisam encontrar prazer e diversão em seus pratos, e não precisam ser perfeitos. Devem ser honestos, originais e puros. A pressão tem que parar.

Chefs de todo o mundo precisam desempenhar o seu trabalho de forma séria, mas não precisam ser tão sérios assim com eles mesmos. Muitos chefs se levam tão a sério que se esquecem de se divertir. Não somos neurocirurgiões salvando vidas, nem estamos descobrindo um novo planeta ou o enviando foguetes ao espaço. Somos chefs que amam cozinhar. As pessoas fazem com que pareça que isso é um grande negócio ou que somos estrelas do rock. Nada disso: somos apenas cozinheiros.

INFOOD – Aqui no Brasil um chef pode chegar a trabalhar entre 12 e 14 horas facilmente. Como conviver com este ritmo?

CHIARINI – Eu trabalho quase 18 horas por dia porque amo o que faço, e ninguém faz nenhuma pressão no meu desempenho. E se alguém tentar fazer, eu digo: “me esqueça“.

Os chefs brasileiros devem aproveitar as longas horas de trabalho continuando a fazer o que gostam. Se você não conseguir aproveitar seu trabalho dessa forma, então mude de profissão e redirecione a sua energia e criatividade para o que você gosta de fazer e se divertir.

Agora, se você ama ser chef, trabalhe tanto quanto você quiser ou puder, desde que você se divirta e não sofra a pressão para ser o melhor ou algo parecido. Sua comida deve honesta, bonita e deliciosa, mas não perfeita. Se seus clientes estão felizes e satisfeitos, então você é bem sucedido, independentemente das avaliações e estrelas.

O mais triste é que o chef Benoît Violier alcançou todas estas coisas e, evidentemente, isso nunca o fez feliz o suficiente para mantê-lo vivo. Este é um fator importante para se pensar.

Eu prefiro optar por desfrutar o que eu amo fazer e permanecer vivo, ao invés de tentar agradar algumas pessoas com pensamentos idiotas e suas necessidades mesquinhas de perfeição. Eu escolho me divertir e cozinhar ao invés de me matar na cozinha.

Perdemos um grande chef e muitos mais morrerão por causa dessas exigências de perfeição. Isso precisa parar.

 

Por Redação 

 

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