Não escolhi a cozinha: ela que me chamou.” É assim que o cozinheiro Marcos Oliveira, o chef Meia Noite, 34, professor e coordenador do Instituto Capim Santo, de Morena Leite, define seu ingresso nesse meio.

Um dos 10 filhos da d.Dequinha, Meia Noite teve uma infância difícil. Nasceu na roça, em Itacaré, mas com a morte de seu pai Enilson, quando tinha 9 anos, foi morar em Aurélio Leal, uma cidade próxima.

Lá passou muita fome. Tinha que pedir dinheiro para poder comer, situação essa que o constrangia. “Eu me lembro de, com o dinheiro que conseguíamos, ir comprar farinha e carcaça de frango (aquele osso das costas do frango) e minha mãe fazia um pirão para alimentar todo mundo.”  Em função dessa humilhação que sentia, Meia Noite acabou voltando para Itacaré para morar com uma tia. Esse retorno para sua cidade natal ficou marcado: “Um dia chegou um homem num Del Rey muito sujo. Depois que lavei seu carro, ele disse que não tinha dinheiro. Em troca da lavagem, pedi uma carona até Itacaré, pois tinha uma tia que morava lá. Mas como não havia espaço no carro, já que ele tinha um supermercado e estava carregado, propus ir encolhido num espaço que havia no porta malas. Ele não acreditou que eu iria ali nas 3 horas de duração da viagem. Fui e não voltei mais. Fiquei lá dos 13 aos 25 anos.

Ali lavou carros e trabalhou no supermercado desse seu carona, para depois começar a trabalhar como guia turístico, profissão essa que o encantou. Como guia, trabalhou por 10 anos.

Marcos Oliveira, o chef Meia Noite, em uma das salas de aula do Instituto Capim Santo

Hoje, nas aulas que ministra no Instituto Capim Santo, faz sua apresentação sempre da mesma forma: “Meu nome é Meia Noite, e meu apelido Marcos Oliveira.”  Capoeirista, Meia Noite tem uma explicação: ele gostava muito de tocar zabumba num forró, mas sempre trabalhava até à meia noite no restaurante. Quando seus amigos o chamavam para tocar, ele respondia dizendo que só poderia depois da meia noite. E com esse nome foi batizado na capoeira, e acabou sendo conhecido. É muito extrovertido e comunicativo, pontos que o auxiliam ainda mais na ministração de suas aulas.

A historia do seu primeiro prato também foi engraçada. Um dia, Meia Noite e um amigo, que hoje é seu melhor amigo – o Comprido – conheceram duas gringas que haviam arrendado uma pousada, e tiveram a ideia de fazer uma moqueca para elas. “Só que eu achei que ele sabia fazer a moqueca, e ele achou que eu sabia. E nenhum de nós nunca tinha feito. Mas, como eu via minha tia fazendo, fui tentar fazer. Fiz a moqueca, um pirão com o caldo do peixe, e servimos. Resultado: todos adoraram, e começaram a falar que eu cozinhava super bem.”

A partir de então, Marcos começou a investir nisso, fazendo estágios em alguns restaurantes. Trabalhou, inclusive, no Txai, um dos melhores resorts da Bahia. Depois de um tempo, conheceu aquela que seria a sua esposa, e veio para São Paulo morar com ela. Foi bem difícil, pois não tinha nem o dinheiro da passagem.  “Eu vim com R$ 300 no bolso, 4 bermudas e 3 camisetas e 1 chinelo havaianas.

O mestre e uma das turmas do Instituto

Já estava pensando em voltar, pois não conseguia emprego, quando a Marina, uma pessoa com quem ele havia trabalhado em Itacaré, ligou e disse que uma amiga tinha um restaurante, e que iria passar o seu currículo para ela. Essa amiga era Morena Leite, que o chamou para trabalhar logo depois.

Comecei com a Morena como ajudante de cozinha. Mas eu tinha muita vontade de cozinhar. Das 12h às 20h eu trabalhava de ajudante, e das 20h até meia noite eu ficava n cozinha para aprender. Comecei na praça da salada e passei por todas as praças.”

Passado algum tempo, Meia Noite começou a auxiliar a Morena nas aulas. Numa ausência dela, por não conseguir embarcar de Trancoso para cá, ele deu uma aula – que era de risoto -, e todo mundo adorou a aula. “Comecei a dar aulas e descobri que era aquilo mesmo que eu queria para mim: cozinhar e dar aulas.”

Com muita vontade de estudar e se aprimorar, Meia Noite conseguiu uma bolsa de 50% no curso de gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi. Assim mesmo era mais do que ele ganhava, e teve que fazer eventos extras para conseguir dinheiro. “Foi difícil, mas hoje eu olho para trás e vejo que todo o esforço que fiz valeu a pena. Eu faria tudo de novo. É muito bom poder usar o que eu sei para motivar e incentivar as outras pessoas.”

Marcos Oliveira: “É necessário respeito pela equipe e a hierarquia que existe dentro da cozinha”

Atualmente são 5 unidades do Instituto: Trancoso (BA), Raposo Tavares (SP), Barra do Sahy (SP), Itacaré (BA) e do restaurante Capim Santo (SP). Em breve deve abrir uma em Serra Grande (BA), e há também a intenção de abrir em Belém do Pará, em Minas, e em Patos (PB). Para o futuro, a ideia é atingir o Brasil inteiro com o Instituto.

É necessário respeito pela equipe, a hierarquia que existe dentro de uma cozinha, a necessidade de conseguir um bom funcionário na cozinha. Às vezes o cozinheiro vem com muita prática e pouca teoria. Outras vezes, aqueles que fizeram faculdade vêm com muita teoria e pouca prática. Então, o objetivo do Instituto é moldar um pouco o profissional conforme o mercado necessita.”

Meia Noite quer ter mais tempo para estudar e pesquisar e, com isso, poder levar mais conhecimento e mais bagagem para os alunos. “Estarei focado em cursos”.

 

Instituto Capim Santo

http://www.restaurantecapimsanto.com.br


Por Redação

Fotos: Heverton Leal

 

One thought on “Chef Meia Noite, do Capim Santo: “Não escolhi a cozinha: ela que me chamou””

  1. Solange Sussuarana Batista disse:

    Muito linda sua história. Apaixonante.

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