Brasileiro, morando há 20 anos em Portugal, Mauricio Gouveia é produtor de vinhos e azeite na região demarcada do Douro. Formado em fisioterapia, mudou de ramo ao herdar as terras do pai. Além de ter a Importadora Empório Gouveia no Brasil, abriu também a startap de ecommerce de vinhos e azeites Winevoo, que tem como objetivo aproximar produtores e consumidores.

Um dos reconhecimentos de seu trabalho foi a premiação que obteve esse ano de seu azeite no NYIOOC 2018 – New York International Olive Oil Competition, recebendo o Silver Award.

Em entrevista exclusiva à Infood, Maurício relata sua experiência em Portugal, revelando as dificuldades e as facilidades de se trabalhar com vitivinicultura. Também conta como pretende expandir o seu negócio, e dá dicas de como reconhecer um bom vinho e um bom azeite.

INFOOD – Qual sua formação e por que foi trabalhar com vinhos e azeite?

MAURÍCIO GOUVEIA – Sou fisioterapeuta, me formei em SP. E há 20 anos, fui trabalhar em clínicas em Portugal na cidade do Porto. Em três meses no Porto fui convidado para ser professor do ensino superior no Norte de Portugal, além de continuar em clínicas, rumei com minha esposa para 150 km mais ao norte.

Fui morar a 25 km da terra onde meu pai nasceu. Neste período, fui proprietário de uma clínica e fiz um programa de doutorado na Universidade de Salamanca na Espanha.

Tudo levava a crer que na fisioterapia iria passar o resto de meus dias.

Mas com a morte de meu pai, em 2008, herdei terras na região demarcada do douro. No início quis vender, mas conversando com um primo produtor de grandes vinhos do douro, falávamos sobre a venda do terreno quando surgiu a ideia de trazer seus vinhos para o Brasil.

Não sabia nada de agricultura, mas comecei a olhar para o agronegócio, e montamos a Importadora Empório Gouveia no Brasil. Depois de 2 anos de luta para obtenção do RADAR, trouxemos vinhos Repto de meu primo para o Brasil, além de um premiado parceiro espanhol Tejoneras.

Morando em Portugal e com a empresa no Brasil, surgiu a necessidade de fazer negócios com vinho na Europa.

INFOOD – Ter um negócio em Portugal é mais fácil do que no Brasil?

MAURÍCIO – Na burocracia sim, tudo bem simples. Fazer uma fatura é um ato simples, lidar com o estado também. Já no Brasil, o setor do vinho sofre mudanças a cada dia, e os objetivos e projeções do negócio têm que ser alterados frequentemente. A carga tributária é elevada neste produto, o que torna ser importador uma luta hercúlea.

Na Europa, vinho é tributado como alimento. No Brasil, como luxo. É um mito a ser quebrado.

INFOOD – Explique um pouco como surgiu a ideia da plataforma Winevoo.

MAURÍCIO – A Winevoo surgiu da necessidade de criar um nicho de produtos de excelência, produtos que se encontram apenas em lojas muito fechadas, ou diretamente no produtor, raros produtos de pequenas quantidades, que geram problemas de logística para ser encontrados, surgiu como ponte.

A ideia é aproximar o comprador com os meus amigos, todos eles premiados no vinho e azeite, em Portugal e Espanha. Produtores de excelência no mundo que não produzem em massa, que não chegam a qualquer mesa, que precisam de espaço pela sua qualidade extrema, azeites com olivais tradicionais, alguns olivais já existiam quando nossos avós nasceram.

Vinhas velhas de onde surgem vinhos excepcionais pelas suas características e castas únicas.

INFOOD – Como foi ganhar o prêmio de um dos melhores azeites este ano?

MAURÍCIO – Foi uma grande vitória, criar uma marca e no primeiro ano ganhar o NYIOOC 2018, disputando com gente excelente, gera uma sensação de dever cumprido.

Dois anos de trabalho preparando a marca, nossa (private collection) parceria com Francisco Pavão e António Pavão, dos mais premiados produtores de azeite do mundo. Nos ajudou a elevar a qualidade do produto e confirmar a tradição da Casa de Santo Amaro.

INFOOD – Como são os preços de seus produtos no e-commerce? Vale o custo/benefício?

MAURÍCIO – Os preços são em função da qualidade. Gosto de dizer que prefiro “preço x qualidade” do que “custo x benefício”. Quando dizem custo/benefício, normalmente se comprou algo barato que é ruim. Preço/qualidade creio ser um conceito a ser buscado. Paguei menos, mas não deixo de ter um bom vinho ou azeite.

Uma tendência de consumo mundial tem sido beber um pouco menos, mas com melhor qualidade, preço qualidade.

INFOOD – Cada vez mais o brasileiro tem buscado valorizar o produto nacional. Você acredita que há mercado no Brasil para se vender produtos de fora?

MAURÍCIO – O Brasil tem excelentes espumantes, mas sempre haverá espaço para a qualidade. E a qualidade nos vinhos e azeites está prioritariamente no velho mundo. As especificidades de terroir os determinam com qualidades únicas, excelência, fazendo-os únicos no mundo, e não só no Brasil.

No nicho gourmet luxo existem produtos de variados países, muitos produtos nunca conseguiram ter similares.

INFOOD – Pretende ampliar o leque de produtos do seu site?

MAURÍCIO – Será ampliado o número de oferta de varios produtos, além de nossa web loja com porcelanas de arte, produtos relacionados com vinho, azeite e etc.

Um de nossos sócios, Carvalho Araujo, português, renomado arquiteto e designer com escritório em São Paulo e Braga, é responsável por todo o nosso design e conceito.

INFOOD – Como reconhecer um bom vinho? E um bom azeite?

MAURÍCIO – No vinho, reconhecer requer tempo, consumo de bons e maus vinhos, e achar neles seus preferidos. Com relação ao azeite, é preciso provar e, principalmente, perceber seus defeitos e qualidades.

Tanto nos vinhos como nos azeites podemos reconhecer qualidades e defeitos.

Um bom vinho deve gerar no nariz aromas frutados, herbáceos, florais, frutos secos e minerais. E na boca, deve gerar corpo, adstringência, temperatura e efervescência.

Um bom azeite extra virgem não pode ter defeitos sensoriais. Ele pode, no olfato, ser frutado, maduro, grama cortada, tomate, casca de banana e casca de amêndoa. Estes são alguns dos bons atributos no nariz de um bom azeite extra virgem. Já na boca, o azeite será frutado, amargo, sensação suave cremosa e picante final de boca.

INFOOD – Qual o segredo para se fazer uma boa harmonização?

MAURÍCIO – Beber o que se gosta, independente dos brancos com peixes, tintos com carnes e espumantes no verão. Um bom espumante depois de uma semana de trabalho intenso em um jantar em casa é um ato de plena harmonização.

Nos azeites também há harmonizações: azeites mais intensos para carnes, mais suaves para saladas.

INFOOD – Pretende voltar a morar no Brasil?

MAURÍCIO – Não pensamos nesta possibilidade. São 20 anos por lá e estamos totalmente integrados. Nos sentimos e somos portugueses, e para nós é uma honra morar em Portugal. Unir Brasil e Portugal, quem sabe, seja esta a minha missão.

 

Empório Gouveia

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Por Redação

Fotos: Divulgação

 

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