Nos últimos anos, a busca por uma alimentação mais rica em nutrientes e com menor grau de processamento possibilitou um interesse pelas chamadas Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs).  Muito mais do que identificar um eventual valor nutritivo em espécies muitas vezes adotadas apenas como vegetação ornamental ou observar de forma mais atenta a presença de representantes deste grupo na paisagem urbana, é necessário refletir sobre a importância de resgatar o hábito de incluir estes alimentos no planejamento alimentar das famílias e indivíduos.

O Brasil tem uma grande biodiversidade de flora. Porém, mesmo em áreas rurais, é crescente a preferência por produtos industrializados em detrimento do uso de ingredientes in natura e que estão disponíveis sem necessidade de intervenção ou cultivo.

O que são PANCs

Conceitualmente, as PANCs são espécies de plantas nativas, exóticas, espontâneas silvestres ou cultivadas, contabilizando em torno de 10.000 com potencial alimentício no país.  Em geral, estas espécies não fazem parte da cadeia produtiva de alimentos. Por isto, o seu consumo tornou-se extremamente reduzido nas últimas décadas.

O resgate destas espécies e a apresentação destes ingredientes para a população é um dos recursos que pode ser aplicado aos conceitos que o Guia Alimentar da População Brasileira preconiza – a redução do consumo de pratos ultraprocessados, com baixa densidade nutricional e a adoção de alimentos in natura ou minimamente processados. O incentivo ao consumo destes alimentos pode contribuir para o maior acesso a fitonutrientes com atividades antioxidantes e fibras, indicadores tradicionais de escolhas alimentares mais saudáveis.

Utilização correta

Outro aspecto importante é a utilização destes ingredientes da forma correta, a fim de evitar a ingestão de substâncias tóxicas ou antinutrientes que podem prejudicar a absorção de determinadas substâncias. Antes de coletar hortaliças em espaços urbanos, é fundamental avaliar a presença de poluição excessiva ou uso de produtos químicos no ambiente. Sobre a forma de preparo, é necessário buscar informações em fontes confiáveis a respeito da melhor forma de servir o alimento.

Algumas folhagens podem ser servidas cruas. Outras, apenas cozidas para a redução de fatores antinutricionais. Um exemplo é ora-pro-nobis, que, apesar de seu elevado teor de proteínas, minerais e vitaminas, contém oxalato, um fator antinutricional presente nas folhas cruas e que pode reduzir a absorção de minerais como ferro e magnésio, além de aumentar os riscos de cálculos renais a partir da formação de cristais de oxalato de cálcio.

Cultivo

A elaboração de hortas escolares também é uma ferramenta importante para o cultivo destas espécies, e apresentação destas opções às crianças na forma de refogados, saladas, pães, sucos e outras preparações. A gastronomia também apresenta papel fundamental, especialmente quanto ao resgate de cultivares bastante tradicionais da culinária brasileira como taioba, serralha, beldroega, pequi, entre outros.

Como exemplos de ingredientes e preparos de pancs podemos citar:

Taioba

Encontrada no interior de alguns estados do Sudeste, principalmente Minas Gerais e Rio de Janeiro. As folhas são as partes mais comumente utilizadas e apresentam elevado teor de fibras, carotenóides e minerais como ferro, potássio, fósforo, cálcio e cobre. Como benefício pode-se citar atividade antitumoral. E, em estudos realizados em animais, a adição de folhas de taioba à dieta mostrou correlação com a redução da gordura hepática e do ganho de peso. As folhas de taioba devem ser preparadas sem nervuras e cozidas em fervura por 10 minutos ou sob vapor por 15 minutos, visto que possuem alcaloides que podem causar arritmia ou danos nos rins, fígado, sistema nervoso e sistema imune.

Também podem apresentar teores de látex que, em excesso, podem ocasionar urticária ou outras manifestações alérgicas. É necessário este mesmo processo para reduzir o impacto destas manifestações. Após este cuidado, a taioba pode ser consumida em refogados, sopas, arroz e em recheios de tortas.

Ora-pro-nobis

Encontrada principalmente na região Sudeste. Possui diversas vitaminas e minerais, triptofano (aminoácido) e fibras. Estudos realizados com roedores demonstraram possíveis efeitos diuréticos e hipotensivos (redução da pressão arterial). As folhas são as partes mais utilizadas e, da mesma forma, devem ser cozidas para a redução de oxalatos.

Pequi

É uma PANC encontrada no Centro-Oeste, principalmente no estado de Goiás. É um fruto rico em fibras alimentares, vitamina C, vitamina A, carotenóides e compostos fenólicos. Além de vitamina E, ácido oléico, folato e vitaminas do complexo B. Em um estudo realizado pela Universidade de Brasília, a administração do óleo de pequi (400mg) em cápsulas por 60 dias para um grupo de pacientes portadores de Lúpus eritematoso demonstrou redução dos níveis de proteína C reativa, marcador de inflamação, indicando que houve melhora da função antioxidante. Além desta ação, o pequi exerce ações anti-inflamatória e antimicrobiana.

A polpa do pequi contém taninos, podendo causar danos ao sistema digestivo. Deste modo é fundamental cozinhar no vapor, ferver ou assar por 15 minutos. Na culinária, o pequi é utilizado na forma de refogado e como ingrediente de doces, farofas, tortas, arroz e carnes.

Baru

Encontrado principalmente no centro-oeste. As amêndoas do baru têm sido amplamente utilizadas como ingredientes de pães, bolos, farofas, sorvetes e geleias. Um estudo que analisou o efeito das castanhas sobre o perfil lipídico (colesterol total e triglicérides) mostrou redução dos níveis destas frações com incremento nos valores do HDL – bom colesterol.

Buscar informações sobre a segurança na utilização destes ingredientes é fundamental para garantir sua reinserção nas refeições da população brasileira.

 

 

Texto: Renata Giudice de Oliveira Lewis
*Renata Giudice de Oliveira Lewis é nutricionista formada pela Faculdade de Saúde Pública – USP, especialista em Nutrição Clínica Preventiva pela Universidade São Marcos. Atua na área de Prevenção e Promoção em Saúde, realizando ações de educação nutricional e atendimento ambulatorial. Responsável pelas disciplinas Higiene e segurança, nutrição e alimentos funcionais da FMU.

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