Assim terminou uma conversa ontem com um cliente. Não houve resposta minha, naquele momento, pois fiquei pasmo, atônito, bravo, puto da existência. Como faço para virar chef “prá-pe-ga-as-mi-na”?

Pacientemente, dou minha atenção e respondo, como sempre faço, afinal, muita gente quer seguir a profissão a qual eu já não mais a sigo, ela é que me persegue e sinto, até, um certo carinho, meio tristonho, de ver esse candidato ou candidata a uma vida muito atribulada e quase sem descanso, mas dei uma desculpa e não respondi naquela hora.

Às vezes penso: tanta gente foge do perigo, mas outros adoram se jogar na fogueira. Acontece que estes que querem se jogar na fogueira, muitas e muitas vezes, não o fazem conscientemente, e sim porque estão embalados por falsas informações.

Que desserviço presta a mídia glamourosa, endeusando o que não é verdade.

Faça um filme de sua vida e, com toda certeza, fará muitos cortes, retirando quase todas as partes ruins, tristes, pesadas e que não te agradaram. O que sobra, 10 a 20 por cento, é sua vida feliz, aquela que você quer deixar os outros verem, assistirem no camarote, invejando você e desejando ser, por alguns momentos, igualzinho.

Isso funciona bem nas redes sociais. É um fato, uma constatação e não invenção de quem vos escreve. Mas não vou escrever sobre isso, afinal, eu acabo sendo assim, também.

Nunca expus uma foto onde estou sujo, suado, descabelado, escorregando no chão molhado da cozinha, queimando o braço, carregando caixas ou sacas de ingredientes.

Prá quê? Ou me diminui, porque na mentalidade das pessoas, somos, nas mídias,  perfeitos ou quase isso, ou atrapalha minha dita moral. Fatos do cotidiano cibernético e midiático.

Porém, voltando à pergunta que recebi e acabei me irritando, a ponto de escrever esse texto na madrugada, porque não saia da minha mente o assunto, é a pessoa entrar em uma profissão imediatamente visando um resultado, aceitável ou não pelos outros, mas sempre abonador para este.

Quero ser chef “prá pega as mina” !!

Nem vou entrar na concordância e na ortografia da frase, pois, ela é um acinte ao bom senso e cultura, mas ao que o pretensioso e tarado “amigo” quis dizer com ela.

O personagem, a quem meu pai, com certeza, chamaria de “poluto”, um ser que se apresenta adulterado, deturpado, manchado ou corrompido, segundo o dicionário, imagina ter tempo suficiente para “pega” e agradar “as mina”.

Pelo que eu entendo, as mulheres gostam de carinho, doação incondicional de seu tempo e atenção, de diversão, viagens românticas, um sentar de mãos dadas na frente da televisão, uma saída a um cinema, um teatro, um carinho com mãos macias, um beijo não gorduroso. E ser cozinheiro profissional dificulta isso.

Ser chef, mas chef de cozinha de verdade, ainda mais. É quase inimaginável as responsabilidades e atos que temos que fazer, dia após dia. O tempo nos foge de uma maneira tal que, quando acordamos, parece que esse dia, o hoje, já é o amanhã, porque o agora já se foi.  E assim será amanhã e depois e depois.

Nas folgas, muitas vezes raras, há tantas coisas e problemas particulares a resolver que, quando sentamos no fim do dia, pegamos a mão da amada para ver aquele filminho, quase nunca passamos da introdução. E esperamos, de coração, não roncar alto.

Sinceramente, minha única diversão diária é, após o expediente, fazer novas experiências, novas criações (que muitas vezes tomam tempo de sono e não dão em nada, ou você acha que tudo na vida é perfeito?).

Posar como chef é outra coisa. Pode ser que você pegue “umas mina” desavisadas, mas precisa de sorte. Ainda bem que hoje em dia todas “as mina” são mais espertas do que sonha sua vã filosofia de bar de esquina, meu caro.

Se almeja chegar ao topo, virar um chef em uma cozinha conceituada, seu foco não pode ser esse. Seu foco é a cozinha. Somente a cozinha. Ela será tua amante.

Acresça a isso ensinar. Virar um professor, além de manter sua atividade de cozinheiro chefe e vai desejar viver em Vênus, onde um dia lá, equivalem a 116 dias aqui. Só assim.

Damos risadas ao lermos que os médicos indicam oito horas de sono, porque, para cozinheiro, isso é tão fantasioso quanto o castelo de Sauron em Moldor. Os dragões nunca te deixam dormir. Quando dormimos quatro horas em uma noite, nos damos por satisfeitos. É quase como implorar por um enfarto.

Quando estamos comprometidos, a mulher (ou homem em caso contrário) não precisa ser rica, linda, uma princesa, mas ela tem que ser tão paciente, que faria Jó, aquele da Bíblia, parecer um adolescente raivoso e inquieto.

E é difícil encontrar uma ou um assim. Sou sortudo, ainda bem, mas demorou e me causou muitos problemas antes.

A certeza de não poder controlar os momentos de sua vida é diametralmente oposta à certeza que tem que ter em seu trabalho. Lá, um passo desconhecido pode acabar com toda a caminhada. A responsabilidade é de Atlas, pois carregamos a cozinha inteira nos ombros. E somos responsáveis por não a deixar cair. Nunca.

Relacionamentos já são difíceis por si só. Até parece uma meia piada de Deus com os seres humanos. O amor é fantasticamente maravilhoso, mas extremamente complicado. Sendo cozinheiro, sendo um chef, multiplique isso por muitas e muitas vezes.

Como arrumei uma desculpa e não respondi diretamente ao “pegador”, fiquei com isso entalado na garganta.

Deveria ter dito: – vai jogar futebol, vai tentar ser cantor, mas não cozinheiro. Não mexemos só com emoções, mas mexemos com a saúde de outros.

E “taca-le” o pau, como diria ao “Marco Véio” naquele delicioso e inocente vídeo que se tornou viral. Só que o “pau” é em nossas cabeças que será “tacado”, se cometermos erros.

Profissão e relacionamentos são sempre complicados.

Ou se tem sucesso na profissão e depois consegue-se sucesso nos romances, ou vai dar “zica” nisso. A ordem dos fatores altera o produto.

Foque-se na profissão, cresça com ela, e depois sente-se de mãos dadas com a amada, calmamente, em frente à televisão, à tela do cinema ou à uma mesa de um romântico restaurante.

Só que quando sentar nesse restaurante, lembre-se que alguém está lá dentro, destituído da chance de ter esse romance, porque está trabalhando para você, naquele momento.

Portanto meu querido, a única “mina” que você vai pegar durante tua jornada para ser um chef que “pega as mina”, se encontrar, vai ser aquela que explode, no sentido figurado, mas de efeito quase igual.

Ah, como eu queria ter dito isso na cara dele, mas estava focado em servi-lo como cliente.

 

Texto: Marcos Ripp Cozzella
*Marcos “Ripp” Cozzella é professor da Escola Varene – Gastronomia Descomplicada e Chef do Restaurante e Buffet Qorthon.
https://gastronomia-descomplicada.webnode.com/
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